AGREMIAÇÕES E PERIÓDICOS LITERÁRIOS CEARENSES: ENTRE-LUGAR E IDENTIDADE CULTURAL
- 26 de jul.
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Prof. Dr. Charles Ribeiro Pinheiro[1]
EMENTA: Este projeto de pesquisa visa investigar as agremiações literárias e os periódicos literários cearenses, do final do século XIX até a década de 1990, enfatizando a problematização da formação da tradição literária no Ceará, discutindo as tensões e suas contribuições para a pluralidade da literatura brasileira. Partindo de um viés de historiográfico e comparatista, o projeto trabalhará com os conceitos de “sistema literário” (Candido 1959), “colonização cultural” (Bosi, 1992), “entre-lugar” (Santiago, 1978), “centro, centros” (Bessière, 2011) e “identidade cultural” (Hall, 1992). O projeto buscará mapear as influências e o papel dos periódicos e grêmios literários no diálogo entre Ceará e outros centros literários brasileiros, desconstruindo a ideia de "centro" como espaço único de difusão cultural, e destacando as singularidades e tensões que configuram a literatura cearense dentro do contexto da literatura brasileira.
RESUMO EXPANDIDO: No estado do Ceará, apesar das históricas desigualdades econômicas e sociais, há 200 anos, existem registros materiais de atividades intelectuais e literárias. O desenvolvimento cultural dos livros e jornais impressos despontou em Fortaleza, a partir da metade do Império (reinado de D. Pedro II), quando a cidade passou por uma série de transformações materiais, devido à produção e à exportação de algodão para a Inglaterra (década de 1860). Nesse ínterim, além das transformações urbanas, ocorreu a criação de educandários, jornais, clubes, livrarias, que ampliaram a socialização entre uma comunidade letrada que consumia leitura. Infelizmente, o acesso às letras não foi amplo para toda a população, mas a circulação de livros e jornais permitiu o início de uma agitada vida literária na cidade. Essa agitação cultural é relatada pelo folclorista Leonardo Mota na obra Padaria Espiritual (1938), em que aponta a existência de mais de 100 agremiações literárias, tanto em Fortaleza, quanto em outras cidades cearenses. A maioria da produção literária - livros, periódicos e revistas – foi fruto dessas associações. A que mais se destacou pela sua originalidade foi a Padaria Espiritual (1892-1898), que continuou uma tradição de grupos literários que ocorreu desde a Academia francesa (1873-1875) e o Clube Literário (1886-1888). Posteriormente, destacaram-se a Academia Cearense (1894), o Centro Literário (1894), no século XX o suplemento Maracajá (1929), jornal Cipó de Fogo (1931), o Grupo Clã (anos 1940), o grupo SIN (anos 1960), o grupo Siriará (anos 1970), entre outros. Desde a metade do século XIX, há um esforço dos intelectuais e escritores cearenses em não apenas consumir os produtos advindos da Europa ou da ‘metrópole nacional’, mas em desenvolver debates que contribuam para a inteligência nacional. Os escritores cearenses liam e se apropriavam de ideias europeias e, não apenas reproduziam, mas construíam novas interpretações, adaptando-as ao nosso contexto. O pesquisador Roberto Ventura explica que esses paradoxos entre a dependência cultural e a originalidade ocasionaram ricas tensões entre diferenças e semelhanças, principalmente, no âmbito dos debates entre centros literários brasileiros, tais como o Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Fortaleza. Portanto, os periódicos das agremiações literárias cearenses foram espaços para a divulgação de ideias, a publicação de textos literários e crítica literária. O objetivo deste projeto de pesquisa é realizar uma investigação das agremiações literárias cearenses, da Academia Francesa (1873) ao Grupo Siriará (anos 1970), e dos periódicos literários, da revista A Quinzena (1886-1887) e à revista Caos portátil (década de 1990), e verificar como essa produção literária contribuiu para a formação e continuidade de um sistema literário no Ceará, em diálogo e tensão com outros centros literários que constituíram uma chamada ‘literatura brasileira’. Os trabalhos do projeto de pesquisa partirão do viés da historiografia literária, da crítica e da literatura comparada. Para o estudo da literatura cearense, com base historiográfica, utilizaremos como principais referências: Antônio Sales (1897), Dolor Barreira (1948), Sânzio de Azevedo (1976) (1982) (1983), Braga Montenegro (1966), Abelardo Montenegro (1953), Artur Eduardo Benevides (1976) e Rodrigo Marques (2018). Sobre o estudo da formação da literatura do Ceará, Antônio Candido com as categorias de sistema literário, continuidade e tradição literária, em A formação da literatura Brasileira (1959) e Literatura e Sociedade (1965), como reflexão historiográfica para entender papel dos grêmios e periódicos na recepção e discussão de ideias estéticas e literárias. A partir de Alfredo Bosi, com as categorias colonização e cultura, de Dialética de Colonização (1992) e Literatura e resistência (2002), para se compreender a pluralidade cultural brasileira. Uma categoria fronteiriça que embasará as discussões, de Silviano Santiago, é o entre-lugar, desenvolvida ao longo das obras Uma literatura nos trópicos (1978), Vale quanto pesa (1982) e Nas malhas da letra (1989), a partir de Homi Bhabha (O local da cultura, 1998), para a compreensão dos diálogos e dos conflitos entre as ideias de literatura regional e nacional, desconstruindo a ideia de ‘centro’ como espaço único de difusão cultural. O entre-lugar é um espaço novo, uma nova potencialidade que nasce à luz das trocas culturais, de conflitos e ambiguidades e será uma categoria para investigar as revistas e jornais literários como espaços de tensões e debates críticos. Outra contribuição importante é A identidade cultural na pós-modernidade (1992), de Stuart Hall, cujo debate sobre identidade cultural é assaz importante, ao problematizar o conceito na contemporaneidade, ressaltando que é uma construção social e histórica, portanto fluida, em constante transformação, ligada às constituições das culturas nacionais. Um pesquisador importante para este debate é o francês Jean Bessière, em seu ensaio “Centro, Centros: novos modelos literários”, integrante do livro Centro, Centros: Literatura e Literatura Comparada em Discussão (2011). Por fim, Roberto Ventura, com Estilo Tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil, 1870-1914 (1989), em que investiga as bases teóricas dos intelectuais brasileiros da chamada ‘Geração de 1870’. Na obra, enfatiza como as teorias sociais e as ideias filosóficas europeias desembarcaram no nosso país e como foram apropriadas e subvertidas nos constantes debates intelectuais sobre a sociedade e a cultura nos principais periódicos brasileiros.
Palavras-chaves: Literatura cearense; agremiações literárias; entre-lugar; cultura; identidade cultural.
REFERÊNCIAS
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[1] Professor graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará (2008). Mestre (2011) e Doutor em Letras (2019) pela UFC, com pesquisas sobre o escritor cearense Rodolfo Teófilo. Além de roteirista de quadrinhos, é autor de livros didáticos de Literatura e professor conteudista do Curso de Literatura Cearense, promovido pela Fundação Demócrito Rocha, em 2020. Vencedor do XII Edital Ceará de Incentivo às Artes (2022), da SECULT-CE, com o livro Rodolfo Teófilo Romancista.



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