Resultados de busca
152 resultados encontrados com uma busca vazia
- Livro "Violência" de Rodolfo Teófilo
Rodolfo Teófilo foi um grande opositor do Governo Accioly (1896-1912) e por conta de sua luta política, sofreu muitas perseguições, sendo uma das mais arbitrárias a sua demissão do Liceu do Ceará. Desde o início do século XX, o Presidente do Estado e seus asseclas perseguem Teófilo devido a sua companha de vacinação contra varíola, em contraposição do descaso do governo estadual em relação à peste. Rodolfo Teófilo atuou desde 1889, na Escola Normal como professor de ciências naturais. Em 1890, passa a integrar o corpo docente do Liceu, nas disciplinas de Mineralogia, Geografia e Meteorologia. Em 1905, o Presidente do Estado, Nogueira Accioly, decreta a extinção da cadeira de mineralogia e designa Teófilo para a de Lógica. Como se negou a assumir a disciplina, foi demitido de seu cargo vitalício. Indignado contra o que considerou um ato de "violência" pelo seu desafeto político, começa a publicar no "Jornal do Ceará", a partir de 1905, uma série de artigos contra a falsa reforma. Ainda em 1905, reúne os artigos e lança o livro "Violência". Eis alguns trechos do livro: "O meu crime vem da publicação a meu livro Secas do Ceará em que tratando das administrações que tem tido o estado durante as secas, tive o atrevimento de criticar, com muita benevolência, é verdade, a passada administração do atual presidente do estado. [...] Violar a lei para tomar uma vindicta não é só um crime, é uma iniquidade! [...]Foi por ter tido a coragem de dizer, essa verdade suprema, que fui condenado a perder a cadeira de professor do Liceu do Ceará. Não hesitou o sr. presidente do estado em cometer o grande atentado contra a lei demitindo um funcionário vitalício. Esqueceu-se de que a violência é a norma de conduta dos governos fracos. [...] O sr. presidente do estado com seu ato arbitrário não atentou somente contra meu direito, mas contra os direitos de todos os cearense" (TEÓFILO, 1905. p. 55-67). A edição fac-similar da foto foi publicada em 2005 pela Coleção do Museu do Ceará, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, com prefácio da historiadora Adelaide Gonçalves.
- Edições do Romance "A fome" de Rodolfo Teófilo
"A fome" foi o primeiro romance publicado por Rodolfo Teófilo, em 1890, em que narra os tristes e chocantes acontecimentos da seca de 1877. A primeira imagem é a capa da edição de 1890. A segunda é organizada pela Academia Cearense de letras, em 1879. A terceira imagem é da edição de 2002, da coleção clássicos cearenses, pela Edições Demócrito Rocha. A última imagem é da Editora Tordesilhas, de 2011. A Campanha Cultural "A Fome-130 anos: Rodolfo Teófilo Romancista" tem por objetivo homenagear os 130 anos de publicação do polêmico romance "A Fome" (1890), um dos responsáveis pela construção da tradição dos romances da seca na literatura brasileira, ressaltando-o como um escritor-leitor e seu contexto literário da cidade de Fortaleza. "Este Projeto é fomentado com recursos da lei 14.017/2020 - lei Aldir Blanc - por meio da secretaria municipal da cultura de Fortaleza".
- Rodolfo Teófilo e a invenção da Cajuína
Uma das grandes realizações de Rodolfo Teófilo como cientista, químico e industrial foi a cajuína. É um aperfeiçoamento químico da antiga bebida dos povos originários do brasil: o cauim. O farmacêutico, no fim do século XIX, aplicou a técnica francesa de Appert, que consiste no processo de pasteurização do suco extraído do caju por meio do banho-maria. O liquido era fervido já embalado em garrafas de vidro lacradas. Ele deu o nome desse processo como clarificação. Ele chegou à fórmula final em 1900 e desenvolveu essa bebida no intuito de ser um substituto das bebidas alcoólicas. A Cajuína era fabricada em sua residência no Benfica e no seu sítio em Pajuçara, onde tinha um espaço reservado para a produção, engarrafamento e rotulagem. Como industrial, ele conquistou, na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, em 1908, Medalha de Ouro pela excelente qualidade da Cajuína. Na imagem, esse é um dos inúmeros cartazes de propaganda da cajuína que eram veiculadas em diversos jornais do Ceará e do Nordeste. Para conhecer mais sobre a Cajuína, conferir o documentário "Arquivo.DOC A cajuína", produzido pela TV Assembleia do Ceará, em 2020. Não percam!
- O Caixeiro de Rodolfo Teófilo - memórias de um caixeiro
No livro de memórias, O caixeiro, de 1927, Rodolfo Teófilo relata a sua juventude, enquanto trabalhava como caixeiro no comércio de Fortaleza. Enquanto trabalhava o dia todo debaixo do sol quente, estudava tarde da noite, se preparando para realizar o seu sonho, o de cursar Farmácia na Faculdade de Medicina da Bahia. Enquanto trabalhava e estudava, cultivava os seus sonhos de poeta efebo e se encantava pelos versos de Casimiro de Abreu. Para cumprir seu objetivo, cedo teve consciência de que "só o livro me podia libertar. Devia estudar; mas como? Os dias eram do patrão, só dispunha eu das noites. A vida agora era mais cansada. Passava o dia na praia exposto ao sol, no serviço de algodão. Ao escurecer, sentado á carteira a copiar o borrador! Voltava ás 9 horas da noite das aulas e recolhia-me ao quarto, uma espelunca quente e com mais muriçocas do que as florestas do Amazonas. Ia preparar as lições alumiado por uma miserável vela de carnaúba, de vintém, pois não podia comprar estearina. Estudava três horas, o tempo que durava a luz. Extinta, deitava-me e adormecia pesadamente" (Teófilo, 2003. p.25-26). O esforço foi recompensado com o diploma de farmacêutico e a vida dedicadas às letras e as ciências. A Campanha Cultural "A Fome-130 anos: Rodolfo Teófilo Romancista" tem por objetivo homenagear os 130 anos de publicação do polêmico romance "A Fome" (1890), um dos responsáveis pela construção da tradição dos romances da seca na literatura brasileira, ressaltando-o como um escritor-leitor e seu contexto literário da cidade de Fortaleza. "Este Projeto é fomentado com recursos da lei 14.017/2020 - lei Aldir Blanc - por meio da secretaria municipal da cultura de Fortaleza"
- INSCRIÇÕES ABERTAS! O Curso "A Fome-130 anos: Rodolfo Teófilo Romancista"
INSCRIÇÕES ABERTAS! O Curso "A Fome-130 anos: Rodolfo Teófilo Romancista" tem por objetivo homenagear os 130 anos de publicação do polêmico romance "A Fome" (1890), um dos responsáveis pela construção da tradição dos romances da seca na literatura brasileira. O Curso faz parte da campanha cultural que ocorrerá na forma de ocupação digital, durante o mês de dezembro e janeiro de 2021, por meio de produção de postagens, vídeos, uma videoconferência e um almanaque gratuito em forma de ebook (de autoria de Charles Ribeiro Pinheiro e arte por Luís XIII), que se utiliza da linguagem visual das histórias em quadrinhos, como forma de ampliar a divulgação do referido romance e as demais obras ficcionais de Rodolfo Teófilo. O Curso, ministrado pelo Prof. Dr. Charles Ribeiro Pinheiro, consistirá em cinco encontros virtuais que abordarão questões interessantes e relevantes do romance A fome, ressaltando Rodolfo Teófilo como um escritor-leitor, ao investigar as leituras que formaram a sua cosmovisão cientificista, assim como a construção de seu estilo naturalista-regionalista, cuja obra ficcional o tornou o precursor da chamada "Literatura das secas". O Curso ocorrerá virtualmente por meio da plataforma Meet (google), nos dias 28 e 30 de dezembro de 2020; 04, 06 e 11 de janeiro 2021, no horário de 18h às 19h. Público alvo: alunos de graduação ou graduados em Letras e, além dos Cursos de Ciências Humanas, demais interessados em Literatura Cearense. Não perca essa oportunidade! "Este Projeto é fomentado com recursos da Lei 14.017/2020 - Lei Aldir Blanc - por meio da secretaria municipal da cultura de Fortaleza". Inscrições por meio do link: https://forms.gle/oM1TLnm8J2EtehvA6 Página do Curso: https://caminhosdapesquisaliteraria.webnode.com/a-fome-130-anos/ Informações: entrelugar.literaturacearense@gmail.com Instagram: @charles.ribeiro.pinheiro Twitter: @Charles_Rib_82 Facebook: https://www.facebook.com/charles.ribeiro.pinheiro
- A minha primeira onda
Não me lembro da primeira vez que vi o mar, pois morava há uns duzentos metros da praia do Mucuripe e uns dois quilômetros da Praia do Futuro. Quando abri os olhos para a existência, portanto, ele já estava lá, tão antigo quanto o mundo. Do meu bairro, situado no alto de uma duna ancestral de Fortaleza, era só andar um pouco que se podia avistar o verde mar, que alimentou meus avós e meus pais. O mar era o meu quintal d'água. Então, desde criancinha, ia sempre à praia. Porém, da primeira vez que entrei sozinho no mar e fui surpreendido, nunca esqueci. Foi um misto de emoções: contemplação, susto e medo. Tinha oito anos e eram férias escolares. Desci com os meus pais até a Praia do Futuro. O Oceano Atlântico me surpreendeu com sua beleza, sua incrível extensão de água verde, com ondas brancas que rolavam até onde os meus olhos podiam ver, sob um céu claro e um sol de verão, brilhante e quente, cujos raios de luz eram afiados como canivetes. Fiquei encantado com a visão e o som daquelas ondas sem fim e mal podia esperar para entrar na água. A princípio não fiquei com medo, como muitas crianças que ficavam a se deparar com aquele pedaço de infinito. Era como se me chamasse. Meus pais distraídos não me viram largar as sandálias na areia e correr freneticamente em direção ao mar. Ninguém me avisou sobre o poder colossal de uma onda. Antes que eu soubesse o que tinha acontecido, fui atacado por uma parede de água em movimento e arremessado contra parte rasa da areia molhada. Sentei-me cuspindo e tossindo água salgada que passava ardendo em minha boca e nariz. Minha testa e meus braços estavam avermelhados e arranhados. Veloz como uma albatroz, a minha mãe veio em meu socorro e me levou para a faixa de areia. Fiquei magoado, chocado e, sobretudo, muito confuso. Claro que tive medo de entrar no mar novamente. Sentei-me no raso e fiquei, ainda chateado, encarando as ondas. Olhava tudo: o horizonte, os surfistas singrando as águas, as pessoas nadando, as crianças brincando, os navios ao longe. Mesmo criança, assustado e atento, com o tempo, fui lendo as cadências das ondas, onde elas eram maiores, onde quebravam, o intervalo de uma onda a outra. Uma hora depois, para não desperdiçar aquela manhã de domingo, entrei no mar novamente, mas com os meus pais. Prevenido, o mar não me pegava mais. O medo cedeu lugar ao divertimento. E eu estava fazendo as pazes com ele, selando uma amizade duradoura. Esse episódio, na Praia do Futuro, me marcou profundamente e me trouxe uma rica lição. A vida é como o mar. Em um minuto, estamos vadeando em águas pacíficas e, no momento seguinte, somos atingidos por uma onda poderosa que nos derruba. Às vezes, a onda estava lá, vindo em nossa direção, mas não dávamos importância. Uma onda pode nos deixar atordoados e sem fôlego. Somos derrubados, atirados na areia ou puxados para baixo. E se o mar nos arrastar e nos afundar, lutamos para respirar e voltar a superfície. A vida como o mar é repleta de ondas de alegria, de prazer, de dor e de tristeza que fluem incessantemente. Contudo, devemos respeitá-lo na sua imensidão, mistério e imprevisibilidade. Se aprendermos a lê-lo, se acostumarmos com ele, tentando conhecer os seus meandros e, claro, se aprendermos a nadar e a saltar suas ondas, ou mesmo surfar, não será antagonista, mas nosso amigo. Ele está lá todos os dias, esperando-me por meus pés sobre suas águas e sentir a sua força infinita. A cadência perpétua do vasto mar traz essas ondas que fluem, ora calmas, ora agitadas. Perceber que a vida é um ciclo é importante, porque seremos constantemente gratos, visto que sempre haverá algo para ser grato, apesar das quedas e arranhões.
- A NORMALISTA – A ATUALIDADE DE UM ROMANCE POLÊMICO
Qual a relevância do romance "A normalista", publicado em 1893, por Adolfo Caminha, escrito nos moldes do naturalismo, no qual retrata, implacavelmente, os vícios, as tramas, os dessabores, a bajulação política, as aparências sociais, a maledicência, o escárnio e a hipocrisia da sociedade de Fortaleza? Ao observar a sua estrutura narrativa e seus temas, percebemos que "A normalista" se insere na tradição dos romances que não servem apenas para o entretenimento, mas como forma de sensibilizar o leitor e de levá-lo a conhecer as intricadas relações sociais que são representadas no papel. A seguir, traçaremos um breve perfil do autor e discutiremos questões literárias e históricas expressivas acerca do polêmico romance. O escritor, nascido no Ceará, em 1867, após perder a família durante a seca de 1877, parte para o Rio de Janeiro. Ingressou na Escola da Marinha, de onde saiu como oficial, aos vinte anos, em 1887. No ano seguinte, transferiu-se para Fortaleza, onde se apaixonou por Isabel Jataí de Paula Barros, esposa de um oficial do exército. O episódio causou escândalo em Fortaleza, forçando-o a pedir demissão da Marinha e assumir o compromisso com Isabel. Nos primeiros anos da década de 1890, tem uma intensa atividade jornalística na capital cearense. Em 1891, funda a "Revista Moderna" e, no ano seguinte, participou da primeira formação da Padaria Espiritual, irreverente grêmio literário e artístico formando na Praça do Ferreira, liderada por Antônio Sales. Em seguida, retorna com a família para o Rio de Janeiro, onde atuou na imprensa carioca. Acometido de tuberculose, faleceu em 1897, aos trinta anos. A sua obra não é vasta, porém é muito significativa. Após a publicação de um livro de poemas "Voos incertos" (1886) e um de novelas "Judite e Lágrimas de um crente"(1887), e do diário "No país dos Ianques" (1894), publicou as suas principais obras: 'A normalista" (1893), "Bom Crioulo" (1895), "Cartas Literárias" (1895) e "Tentação" (1896).No Rio, enquanto colaborava no jornal Gazeta de notícias, publicou "A normalista", inspirado nas narrativas dos escritores franceses Émile Zola e Honoré de Balzac e, segundo o próprio autor, num artigo do livro de crítica "Cartas Literárias", é uma "singela narrativa de um escândalo de província" que retrata "com firmeza de observação, levemente penumbrada de um pessimismo irônico e sincero, que está no meu próprio temperamento" (CAMINHA). Como salienta o pesquisador Sânzio de Azevedo, o romance "é um retrato cruel da provinciana Fortaleza", em que a cidade é apresentada repleta de tipos mesquinhos, hipócritas, frívolos e degenerados. É óbvio que Adolfo Caminha teceu um projeto ficcional, contudo não se pode ignorar o fato acontecido na sua vida. Como mencionado, anos antes, o escritor envolveu-se com uma mulher, cujo marido era oficial do Exército, e Adolfo Caminha era oficial da Marinha. Nessa época, essas instituições tinham rivalidades políticas. A publicação de A Normalista provocou alvoroço e reacendeu a cólera dos seus inimigos do Ceará. Segundo Frota Pessoa, seu amigo e biógrafo, no livro "Crítica e polêmica" (1902), a polemicidade do livro se deve porque Caminha "ferreteava individualidades poderosas fotografando com uma verdade crua uns certos aspectos da sociedade cearense" (PESSOA). Ou seja, representa Fortaleza, durante os anos de 1888 a 1889, com as suas mazelas e podridões morais e a estética naturalista foi adequada, pois o escritor utilizou seus pressupostos para embasar o seu enredo. O Naturalismo surgiu na França, a partir da década de 1860, com o escritor Émile Zola e foi uma tentativa ambiciosa de aproximação entre a Literatura e a Ciência. Para Zola, o romancista naturalista atribui a si uma missão científica ao observar a sociedade para tentar transcrevê-la em suas obras. Não deixando espaço para o embelezamento da realidade, o olhar do escritor naturalista é um olhar cru sobre o mundo que não hesita em revelar toda a sua feiura. Portanto, do ponto de vista científico, não havia temas morais ou imorais. No romance seguinte, "O Bom crioulo" (1895), Adolfo Caminha explorou ainda mais o naturalismo, ao narrar a história de um marinheiro negro e homossexual que nutre um caso amoroso por outro marinheiro, aperfeiçoando sua crítica social. O mote que move a narrativa de "A normalista" é abuso sexual que João da Mata pratica contra a afilhada, Maria do Carmo. Ela, estudante da Escola Normal, foi criada pelo padrinho, depois que perdera a mãe na grande seca de 1877. Aos quinze anos, chamava a atenção de toda a cidade, pois, era "uma rapariga muito nova, com um belo arzinho de noviça, morena-clara, olhos cor de azeitonas, carnes rijas" (CAMINHA). Ela era ingênua e sonhadora e namorava Zuza, estudante de direito, filho do coronel Souza Nunes. Ele é descrito como "um rapaz da moda. Montava a cavalo, fazia versos, assinava a Gazeta Jurídica, frequentava o palácio do presidente..." (CAMINHA). Repleto de ciúmes e obcecado pela afilhada, João da Mata usa dos mais variados meios, incluindo chantagens psicológicas e seu poder masculino, para seduzir a afilhada, sem que sua esposa ou outras pessoas desconfiassem. Segundo o narrador do livro, Maria do Carmo "para não desagradar ao padrinho, obedecia-lhe cegamente, com a resignação indolente e fria, duma escrava. Que havia de fazer, ela uma pobre filha adotiva, se o padrinho era quem lhe dava de comer e de vestir? (CAMINHA). Acuada, Maria do Carmo foi escravizada pelos caprichos perversos do padrinho, mesmo tendo "ímpetos de reagir com toda a força do seu pudor revoltado" (CAMINHA). A personagem tinha sonhos em concluir seus estudos na Escola Normal, casar-se com Zuza, ter uma casa elegante e participar da vida social da cidade, enquanto o padrinho, como um animal no cio, estava obcecado em deflorá-la até conseguir. A cidade de Fortaleza não é apenas cenário, mas um grande personagem do romance, e nesse período, como assinala o historiador Sebastião Rogério Ponte, em "Fortaleza Belle Époque", enquanto ocorria o crescimento comercial e a concentração de capital, havia por parte da sociedade, a tentativa de assimilar padrões de comportamento e valores da burguesia europeia, vista como modelo. A casa de João da Mata, em que ocorre os pormenores da ação dramática, é descrita como "uma casinhola de porta e janela, cor de açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité" (CAMINHA). Só nessa passagem, do primeiro capítulo do romance, observamos dois lugares, a Rua do Trilho (atual rua Tristão Gonçalves), em que passava o trem vindo da Estação ferroviária, que hoje fica na atual Praça Castro Carreira. A modernidade estava diante da casa de João da Mata, simbolizada pelos caminhos abertos pelo progresso, mas também o seu aspecto negativo através da sujeira oriunda da fuligem dos trens. Outros logradouros que aparecem na história: a Escola Normal, A Igreja do Coração de Jesus, o Colégio da Imaculada Conceição, a Igreja do Patrocínio, o "Casarão do Governo" (atual prédio da Academia Cearense de Letras), o Passeio Público, a Praça do Ferreira e a rua Formosa (rua Barão do Rio Branco). Nessa cartografia literária, é representada "a vida ruidosa e dissoluta das capitais, esse tumultuar quotidiano de virtudes fingidas e vícios inconfessáveis" (CAMINHA). A crítica à cidade é endossada com maior veemência pelo personagem Zuza. Vítima das fofocas do "Ceará Moleque", considerava a província estúpida, "uma terra de bugres... [...] em que só se fala nas secas" e que "estava doido por se ver livre de semelhante canalhismo" (CAMINHA). Zuza era um modo do autor dar voz a sua indignação, para tecer uma visão negativa e demonstrar o descompasso de Fortaleza em relação ao processo de modernização, de inspiração eurocêntrica, de outras cidades, a exemplo do Recife. A tensão civilizatória existente no romance ocorre, pois, materialmente, a província é constituída por avenidas largas, praças ornamentadas, trens, navios a vapor, jornais, mas, na esfera da vida privada, é moralmente hipócrita, em que os abusos, as violências, a patifaria e a fofoca imperavam. O escritor escolheu o tom ácido, combativo e sarcástico para reconstituir meticulosamente essa vida urbana. O desejo de ascensão social, as intrigas políticas e partidárias, as intrincadas relações familiares e afetivas e os escândalos existentes nas classes médias e nas mais endinheiradas são temas que continuam atuais. Adolfo Caminha contribuiu notavelmente para enriquecer e diversificar a ficção desenovista brasileira. Charles Ribeiro Pinheiro *Texto originalmente publicado no site Segunda Opinião, em 22/10/2020, disponível em: https://segundaopiniao.jor.br/a-normalista-a-atualidade-de-um-romance-polemico/
- Dia do Poeta - 20 de outubro
Hoje é celebrado o dia do poeta. Para este dia, meditamos a partir das reflexões do poeta hispano-americano Octavio Paz afirmou que a linguagem era o motor essencial do destino da sociedade humana. Na obra o "Arco e a lira" (1984), ele interpretou a linguagem poética como um instrumento confiável da situação ideológica, política da sociedade e da responsabilidade individual perante ela. Em um poema, Octavio Paz descreve a condição do fazer poético. "Destino do Poeta" Palavras? Sim. De ar e perdidas no ar. Deixa que eu me perca entre palavras, deixa que eu seja o ar entre esses lábios, um sopro erra mundo sem contornos, breve aroma que no ar se desvanece. Também a luz em si mesma se perde. (trad. Haroldo de Campos) Para o poeta, a poesia é como uma filosofia, pois partilha também do mesmo sentimento de contemplação da vida, porém, é uma atividade anfíbia, porque faz parte e está atrelada ao contexto histórico, e nem é história, nem filosofia. A poesia parte do mundo concreto, não é abstrata e nem está apartada da realidade, como ele cita no livro "O arco e a Lira: "A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. [...] Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. [...] Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem" (PAZ, 1984, p. 15).
- Narradores de Javé: tensões e salvação pela palavra
"Narradores de Javé" é uma narrativa sobre narrativas. Lançado em 2003, com direção/roteiro de Eliane Caffé e roteiro de Luís Alberto de Abreu, conta com José Dumont; Gero Camilo; Rui Resende; Luci Pereira; Nélson Dantas; Nélson Xavier no elenco. É um dos filmes brasileiros mais premiados das últimas décadas, além de suscitar ricas e variadas possiblidades de interpretação. O título do filme chama atenção por dois elementos essenciais de seu enredo: "Javé", cenário da história, cidade pobre do interior da Bahia, que precisa ser salva de uma futura inundação, devido a construção de uma barragem hidroelétrica; e "narradores", substantivo no plural, que corresponde aos habitantes dessa cidade, não apenas personagens, mas um conjunto dinâmico e polifônico de vozes, materializações efêmeras das experiências e histórias do povo. Portanto, o filme conta a luta de um povo para reconstituir a sua história, através da oralidade, para salvar a sua cidade da inundação. O protagonista do filme é o próprio ato de narrar. Isso foi meticulosamente construído no roteiro de Caffé e Abreu. Quando nós narramos uma história, abrimos conexões. É assim que os humanos se comunicam desde o início dos tempos - contando histórias e nutrindo conexões. Contar histórias é universal e tão antigo quanto a humanidade. Antes de haver escrita, havia o ato de narrar. Ocorre em todas as culturas e em todas as épocas. Ela existe (e existiu) para entreter, informar, educar e promulgar tradições e valores culturais. As pessoas, ao narrar histórias, dão forma as suas experiências e aos significados que essas experiências têm para suas vidas. Todas as culturas e sociedades também possuem suas próprias histórias sobre seu passado e seu presente e sobre sua visão do futuro. Essas narrativas incluem histórias de grandeza e heroísmo, ou de dor e sofrimento. A população de Javé, ao tomar conhecimento da construção da hidroelétrica, fica revoltada e busca um meio de preservar a sua terra. Zaqueu, narrador da história, explica ao povo que a cidade só não será inundada se tiver algum patrimônio, algo importante, 'história grande', segundo os engenheiros da hidroelétrica. Contudo, os moradores não têm nada material que registrasse a história da cidade, visto que quase todos são analfabetos. Isso poderia ser interpretado como um descompasso civilizacional, devido às desigualdades socioeconômicas e aos descasos anteriores dos governos e autoridades, porém, também revela que a escrita e leitura, no dia a dia desses moradores, não tinham serventia prática e costumeira. Como diz o personagem Antônio Biá: "- Não existe nada de importante para ser registrado nesse fim de mundo". Nesse ponto, percebemos o conflito entre uma concepção de História oficial, pautada na tradição escrita do papel como documento válido e científico e a tradição oral do povo, suas histórias, suas memórias, vivências. Os moradores têm consciência de que são despossuidores dos conhecimentos formais de comunicação e atribuem importância ao registro escrito por saberem que os donos da hidroelétrica prestigiam o poder do papel como valor de verdade e de autoridade. Então, surge a ideia de registrar a fundação da cidade no "Grande Livro da História de Javé", provando que ela é um patrimônio importante. Mas, há um impasse, "- e como vamos juntar as histórias, se elas estão na cabeça?", diz a personagem Maria. Para realizar a tarefa de ouvir as narrativas do povo e passá-las para o papel, caberá a Antônio Biá, único morador com domínio da escrita, malandro talentoso em inventar histórias. Biá é odiado em Javé, pois espalhou cartas difamatórias sobre os moradores da cidade para as localidades vizinhas, para garantir o seu emprego no posto dos Correios. Biá é 'catado' pelos moradores e, depois de relutar, aceita a épica tarefa de escrever a "História" de Javé, isto é, no singular. Então, Biá percorre a cidade, ouvindo os relatos dos moradores. De modo bem humorado, ele entrevista Seu Vicentino, Deodora, Firmino e Pai Cariá, além dos gêmeos e Daniel, em que cada personagem dará a sua versão da fundação de Javé. Cada personagem quer atribuir uma importância a si em relação à origem da cidade, ao narrar a história, de modo alegórico, afirmando sua descendência dos heróis fundadores. O primeiro entrevistado, seu Vicentino, diz ser descendente de Indalécio, fundador da cidade, cavaleiro que remete a figura de um São Jorge sertanejo. Indalécio liderava um grupo que esteve em guerra contra a Coroa portuguesa que se evadiu para o sertão. É uma narrativa heroica, épica, que relata os bravos feitos do fundador, sacralizando-o. A segunda entrevista, Deodora, declara ser descendente de Mariadina, verdadeira fundadora da cidade, porque, após a morte de Indalécio, guiou e protegeu o povo no sertão. Ela encontrou e estabeleceu o lugar que seria a futura Javé, e, em cima de um monte, cantou as divisas do povoado. Ao contrário dessas versões heroicas e míticas, o personagem Firmino conta uma narrativa paródica e humorada da fundação de Javé, ao narrar que Indalécio morreu de dor de barriga, obrando, e que Mariadina era uma louca, espécie de bruxa. Em seguida, Antônio Biá é acompanha o personagem Samuel a uma comunidade quilombola, próxima a Javé. O patriarca da comunidade, Pai Cariá, narra, em iorubá, a fundação de Javé, descrevendo Indaleo (Indalécio de sua versão) como um homem negro, jovem e forte, que guiou o seu povo até uma cachoeira, casa de Oxum, mãe das águas. Samuel traduz para Biá a contação do Pai Cariá, que, em transe, rediz as palavras de Indaleo: "- A África agora estava ali com eles". Isso enriquece as narrativas da fundação da cidade, criando elos ancestrais com a África, gerando uma multiplicidade cultural. Ao longo do filme, os personagens se zangam, pois Biá ouve todos os relatos, mas não escreve nada. Indagado, ele diz que "- a história é de vocês, mas a escrita é minha". Mesmo procrastinando a tarefa por esperteza, ele como um narrador percebe a multiplicidade de versões sobre a fundação da cidade. Cada personagem dá uma versão do mito de origem, atribuindo a si o protagonismo perante a comunidade. Portanto, o que era para ser a "História" de Javé, torna-se dissenso, uma polifonia de vozes, uma disputa de poderes simbólicos. Essa 'confusão' de narrativas nos remete ao que diz o pensador Walter Benjamin, no seu ensaio sobre o conceito de história, em que 'a história é objeto de uma construção, cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de agoras". A multiplicidade dos fragmentos revela memórias incompatíveis. Antônio Biá, ao ouvir o relato de Vicentino, declara que ainda estava muito simples, que precisava acrescentar mais algo, pois "- uma coisa é o fato acontecido, outra é o fato escrito." Como arteiro cronista, ele constata que há uma impossibilidade de uma única representação da história da origem de Javé. Ao longo do filme, como já foi citado, há esse conflito entre a ideia e valorização de uma representação da origem da cidade como uma história oficial, visto que os capitalistas, as autoridades só reconhecem o valor de patrimônio a algo se houver documentos, registros materiais, provas científicas. Porém, existem as experiências que o povo preservou através da oralidade, da imaginação. A memória como um artifício da cultura mantém a coesão de um grupo. Como diz o geografo Milton Santos, a cultura é o cimento que une as pessoas. Os conflitos existem no filme porque cada personagem constrói um discurso de sua identidade individual como um símbolo da identidade coletiva de Javé. Por isso, há pressa dos moradores em registrar suas histórias, pois o que é o povo sem o relato das experiências de seus antepassados? Ambas são importantes, a fala e a escrita, pois são modos de comunicação, de continuidade de saberes, de tradições. A escrita servirá como o registro da oralidade, em que as narrativas dos outros serão lidas por outras pessoas além do tempo e do espaço. As narrativas preservam as experiências e saberes, mantendo as culturas vivas se forem passadas adiante, de geração em geração. Os moradores de Javé buscaram a salvação pela palavra. Mesmo sem ter êxito contra as águas, as palavras permanecem e permanecerão com eles, aonde forem, a dar corpo a novas histórias de migrações e de lutas. Essas são belas reflexões que o filme de Eliane Caffé proporciona continuamente. Texto originalmente publicado no site Segunda Opinião, em 25/09/2020. https://segundaopiniao.jor.br/narradores-de-jave-tensoes-e-salvacao-pela-palavra-por-charles-ribeiro-pinheiro/
- Bate-papo_A Normalista de Adolfo Caminha_Série bom Livro
Bate-papo sobre o romance "A Normalista" (1893), do escritor cearense Adolfo Caminha, com a participação do professor Charles Ribeiro Pinheiro, promovido pelo canal do Instagram @seriebomlivro, com a curadora do professor João Paulo Foschi, que realiza um importante trabalho de resgate da memória editorial dos clássicos da Literatura brasileira, publicados pela Editora Ática. Acompanhando a tradição dos romances de costumes, "A Normalista" é um dos mais polêmicos livros do naturalismo brasileiro, a realizar uma representação atroz da hipocrisia, da dominação masculina, da maledicência, da mesmice provinciana e da molecagem da cidade de Fortaleza, capital do Ceará, no final do século XIX. Bate-papo realizado no dia 18 de outubro de 2020, no ig @seriebomlivro João Paulo Foschi, nascido em Crateús (CE), em 1980, possui formação acadêmica em Pedagogia e Letras (Francês), com pós-graduação na área de Semiótica e Literatura e mestrado em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará. Como ficcionista, publicou o romance "A condessa de Assis". Idealizador e curador do projeto @seriebomlivro, no Instagram. https://www.instagram.com/seriebomlivro/ Charles Ribeiro Pinheiro é Professor de Literatura, graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará (2008). Mestre em Letras (2011) e Doutor em Literatura Comparada (2019), pela UFC, com pesquisas sobre Rodolfo Teófilo. Coordenador do projeto de extensão e docência "O entre-lugar na Literatura cearense" (2015-2018). Além de roteirista de quadrinhos, é autor de livros didáticos e conteudista de Literatura. Instagram: https://www.instagram.com/charles.ribeiro.pinheiro/
- Rodolfo Teófilo - Romancista Cearense
Baiano por acidente e cearense de coração, farmacêutico e literato, Rodolfo Teófilo (1853-1932) foi uma figura de intensa atuação política e cultural durante a passagem do século XIX ao XX no Ceará. Intelectual engajado, foi um ferrenho opositor da oligarquia Accioly (1896-1912); além de denunciar o descaso do governo em relação às secas, participou ativamente da campanha abolicionista (1881-1883) e, contrariando os seus opositores, conseguiu erradicar a varíola do estado do Ceará (1900-1907). A singularidade do naturalismo literário de Rodolfo Teófilo acentua-se através da presença constante da "cor local", cujo objetivo era fotografar a nossa época, os costumes, índole e civilização do nosso povo. O seu romance de estreia é A fome (1890), que narra, com um estilo cru e dantesco, os flagelos assustadores, acontecidos durante a grande seca de 1877-78. Rodolfo Teófilo subtitulou o livro como "cenas da seca do Ceará" e é considerado um dos textos mais fortes da literatura brasileira. O livro é eivado de descrições cruas e exageradamente cientificistas dos retirantes agonizando e morrendo devido à fome e à epidemia de varíola que assolou a capital cearense. Foi na década de 1890, que Rodolfo Teófilo participou da famosa Padaria Espiritual, da qual foi o seu último padeiro-mor (presidente). Por meio dessa agremiação literária, o farmacêutico publicou a maior parte de seus romances mais destacados: Os Brilhantes (1895), Maria Rita (1897), Violação (1898) e O paroara (1899). Rodolfo Teófilo tentou representar fidedignamente os problemas sociais, políticos e ecológicos do Ceará e do nordeste de sua época em suas obras literárias. Pesquisa Acadêmicas sobre Rodolfo Teófilo Pesquisador: Charles Ribeiro Pinheiro DISSERTAÇÃO: Rodolpho Theophilo: a construção de um romancista (2011). Local: Programa de Pós-Graduação em Letras - UFC. Orientação: Prof.ª Dr.ª Odalice de Castro Silva. Resumo: Esta dissertação realizou uma investigação da formação intelectual e literária de Rodolfo Teófilo (1853-1932), verificando como se deu o seu amadurecimento como ficcionista em O paroara (1899). Para tal propósito, situamos, de maneira crítica, o referido autor em sua conturbada época e espaço social: a Fortaleza da Belle Époque. A pesquisa dividiu-se em três capítulos: o primeiro relacionou o escritor ao contexto em que está inserida a sua obra ficcional, além do estudo de seu campo intelectual e literário; no segundo, o estudo da dinâmica dos processos de leitura e desleitura e, no terceiro capítulo, como ocorreu a construção do estilo naturalista-regionalista de Rodolfo Teófilo. Ele realizou uma desapropriação poética da escola naturalista e atingiu uma escritura singular, recriando o regionalismo, tornando-se precursor da chamada Literatura das secas. Bolsa: FUNCAP. Disponível em: https://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/3452 TESE: Rodolfo Teófilo polemista: a crítica polêmica como estratégia de glorificação literária. Local: Programa de Pós-Graduação em Letras - UFC. Orientação: Prof.ª Dr.ª Odalice de Castro Silva. Resumo: A presente pesquisa investigou as polêmicas literárias de Rodolfo Teófilo, enfatizando os textos críticos publicados na imprensa cearense, como estratégias para atingir a glorificação literária. O escritor confrontou Adolfo Caminha, José Veríssimo, Rodrigues de Carvalho, Gomes de Matos, Osório Duque Estrada e Meton de Alencar em textos estampados em diversos periódicos, posteriormente reunidos na obra Os meus zoilos (1924). O livro dialoga intensamente com os debates da inteligência nacional do final do século XIX, os quais revelam tensões entre vários centros literários, tais como o Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza. O escritor integra uma tradição de polemistas brasileiros, a qual teve como importantes representantes José de Alencar e Silvio Romero. Bolsa: CAPES-DS. Disponível em: https://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/41357 Portfólio Acadêmico e literário: https://caminhosdapesquisaliteraria.webnode.com/portfolio/
- Aniversário de Patativa do Assaré
Hoje é aniversário de Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré (Assaré, CE, 1909-2002), é poeta, compositor, cantor e improvisador. Cego de um olho por causa de uma doença, ele só frequentou a escola por alguns meses, antes de ir trabalhar no campo para ajudar sua família. Por volta dos vinte anos, começou a cantar em festas populares cearenses. É a partir desse momento que ele recebe o apelido de Patativa, nome de um pequeno pássaro que vive na região. Foi em 1956, na festa da Feira do Crato, que conheceu José Arraes de Alencar, que o ajudou a publicar o seu primeiro livro, "Inspiração Nordestina". Viva o aniversário de Patativa do Assaré, um dos maiores poetas cearenses do século XX. "Patativa do Assaré (1909-2002) foi um poeta e repentista brasileiro, considerado um dos principais representantes da arte popular nordestina do século XX. O seu poema "Triste partida", em 1964, foi musicado e gravado por Luiz Gonzaga (1912-1989), o que lhe rendeu projeção nacional. Seus versos, traduzidos em vários idiomas, são temas de estudos em diversas universidades pelo mundo, a exemplo da Universidade de Sorbonne, na França, em sua disciplina "Literatura popular universal". (Trecho do Fascículo 1 do Curso de Literatura cearense da Fundação Demócrito Rocha, 2020, em coautoria com Lílian Martins). Na foto, a biografia escrita pelo pesquisador e jornalista Gilmar de Carvalho, em duas edições. Acima, a obra da coleção nordestina, "Patativa do Assaré-Cordeis", 2ª edição ampliada que foi indicada para o vestibular da Universidade Federal do Ceará. Para que a poesia e a arte nos consolem desse mundo caótico e atroz. Viva o aniversário de Patativa do Assaré, um dos maiores poetas cearenses do século XX. "Cabra da Peste" - Patativa do Assaré em "Cante lá que eu canto cá" Eu sou de uma terra que o povo padece Mas não esmorece, procura vencer, Da terra querida, que a linda cabocla De riso na boca zomba no sofrer Não nego meu sangue, não nego meu nome, Olho para fome e pergunto: o que há? Eu sou brasileiro fio do Nordeste, Sou Cabra da Peste, sou do Ceará Tem muita beleza minha boa terra, Derne o vale à serra, da serra ao sertão Por ela eu me acabo, dou a própria vida, É terra querida do meu coração Meu berço adorado tem bravo vaqueiro E tem jangadeiro que domina o má Eu sou brasileiro fio do Nordeste, Sou Cabra da Peste, sou do Ceará Ceará valente que foi muito franco Ao guerreiro branco Soares Moreno, Terra estremecida, terra predileta Do grande poeta Juvená Galeno Sou dos verde mare da cor da esperança, Qui as água balança pra lá e pra cá. Eu sou brasileiro fio do Nordeste, Sou Cabra da Peste, sou do Ceará Ninguém me desmente, pois, é com certeza Quem quer vê beleza vem ao Cariri, Minha terra amada possui mais ainda, A muié mais linda que tem o Brasi. Terra da Jandaia, berço de Iracema, Dona do poema de Zé de Alencar Eu sou brasileiro fio do Nordeste, Sou Cabra da Peste, sou do Ceará.











