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  • BREVE EXPLANAÇÃO SOBRE A MATÉRIA DA POESIA E O FAZER LITERÁRIO

    Charles Ribeiro Pinheiro Contemporaneamente, entendemos que a singularidade da literatura vem de sua condição estética, visto que a linguagem, a sua matéria-prima, é trabalhada de maneira criativa (CÂNDIDO [2004], COMPAGNON [1999] e JOUVE [2012]). A literatura usa a língua como suporte, no entanto não é sua prisioneira, pois subverte as regras gramaticais e o sentido das palavras, inclusive criando novos termos. Ela explora todas as potencialidades da linguagem, fugindo do uso comum da língua, visando significar mais. Através da literatura, o homem expressa as suas angústias, esperanças, sonhos, medos, ideias e paixões. Não exagero afirmar que o tema primordial da literatura é a condição humana, como salienta o pensador francês Jean Paul Sartre (1993). A literatura tem como principal referente à realidade, porém como fenômeno estético, não tem a presunção de representá-la fielmente. Como nos alerta a professora Leyla Perrone-Moisés, na obra Flores da escrivaninha, "a Literatura parte do real que pretende dizer, falha sempre ao dizê-lo, mas ao falhar diz outra coisa, desvenda um mundo mais real do que aquele que pretendia dizer" (p. 102, 2006). Ou seja, nasce dessa tentativa de expressar a realidade, e quando a autora menciona que ela "desvenda um mundo mais real" (p. 109, 2006), mostra-nos que essa arte nos revela um lado oculto do mundo, algo que ignorávamos. Além da intenção de comunicar e informar, a linguagem poética é um processo de criação, pois faz uso da imaginação para reconstruir o mundo através das palavras. O poeta e crítico Décio Pignatari nos afirma que para o poeta, mergulhar na vida e mergulhar na linguagem é (quase) a mesma coisa. Ele vive o conflito signo vs. coisa. Sabe (isto é, sente o sabor) [...] que a palavra "amor" não é o amor - e não se conforma... O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e recriando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo, O poeta é radical (do latim, radix, radicis = raiz): ele trabalha as raízes da linguagem. Com isso, o mundo da linguagem e a linguagem do mundo ganham troncos, ramos, flores e frutos. É por isso que um poema parece falar de tudo e de nada, ao mesmo tempo. É por isso que um (bom) poema não se esgota: ele cria modelos de sensibilidade. É por isso que um poema, sendo um ser concreto de linguagem, parece o mais abstrato dos seres. É por isso que um poema é criação pura - por mais impura que seja. É como uma pessoa, ou como a vida: por melhor que você a explique, a explicação nunca pode substituí-la. É como uma pessoa que diz sempre que quer ser compreendida. Mas o que ela quer mesmo é ser amada (PIGNATARI, 2005, p. 11-12). Como ressalta o poeta, a literatura é uma 'poíesis', raiz grega da palavra 'poesia' que significa fazer, criar. O poeta, o escritor literário, é um criador de mundos de linguagem. Aristóteles, em sua Poética, já afirmava que o poeta é um fazedor de mitos, ou seja, narrativas ficcionais. Além do trabalho com a linguagem, o escritor tem a consciência de que está realizando um ato estético por meio da palavra. A literatura remete ao mundo externo, pode tentar representa-lo, simbolizá-lo, recriá-lo, mas constitui outra realidade tecida a partir do ato criador do poeta. A seguir, leremos um poema do poeta modernista Cassiano Ricardo. A partir de sua análise, discutiremos a matéria da poesia, o fazer literário e suas singularidades. "Poética" Que é a Poesia? Uma ilha Cercada De palavras Por todos Os lados. Que é o Poeta? Um homem Que trabalha o poema Com o suor do seu rosto. Um homem Que tem fome Como qualquer outro Homem. Cassiano Ricardo (1895-1974) é um poeta da primeira fase do modernismo brasileiro, oriundo dos avanços e das polêmicas da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. O poema faz parte do livro Jeremias sem chorar, de 1964, uma alusão ao milenar texto bíblico, O Livro das Lamentações, escrito pelo profeta Jeremias. O texto é o poema metalinguístico, pois fala da própria poesia, do ato poético ao indagar "Que é poesia?" e "Que é o poeta?". E como já foi discutido essas questões, que afligem teóricos, linguistas, gramáticos há milênios. Em sua definição, o eu lírico enfatiza o principal elemento que constitui o poema, a palavra. A poesia é comparada a uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Porém, só a existência da palavra não delimita a poesia. Para existir, ela precisa do homem, outro elemento essencial. O homem é o ser que é dotado da capacidade de fazer linguagem, e a partir da linguagem, a poesia. Mesmo a definição de poesia ser efetuada de forma lúdica, quando se refere ao homem, ao fazedor de poesias, o eu lírico destaca o caráter social da literatura, pois o poeta "trabalha o poema com o suor do seu rosto." Em poucos versos, questiona a condição humana ao estar atrelada ao valor do trabalho, pois o poeta, assim como os outros homens, tem necessidade, precisa sustentar a si e a sua família. O poeta não vive apenas da beleza, do sonho, ele precisa viver com o suor de seu trabalho. É um indivíduo que tem, tanto aspirações individuais, quanto lutas coletivas. Portanto, a matéria da literatura são as palavras, mas que dá o seu caráter estético é o homem. A literatura manifestada em um texto poético concede um lugar especial às palavras, porque a mensagem a ser transmitida vai além da beleza estética, ela será dotada de um poder sugestivo em que os variados sentidos das palavras importam mais do que seu significado principal. O poder de invenção do poeta é pela criação verbal, em que explora todos os recursos da linguagem. O poeta inventa uma nova linguagem em que as palavras têm mais significado e densidade ao invés do seu uso usual. Por isso, a poesia é uma manifestação cultural criativa e inovadora. Portanto, a literatura aponta o que está faltando no mundo e em nós, não retratando a realidade, mas a deformando e a recriando. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CÂNDIDO, Antônio. "O direito à literatura". In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2004. COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Tradução Cleonice Paes Barreto Mourão e Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: UFMG, 1999. _______. Literatura Para quê? Trad. Laura Taddei Brandini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. JAKOBSON, Roman. "O que fazem os poetas com as palavras". In: Colóquio/Letras. Lisboa, n. 12, mar. 1973, p. 5-9. Disponível em: https://coloquio.gulbenkian.pt/cat/sirius.exe/issueContentDisplay?n=12&p=5&o=p ________. Linguística e Comunicação. Trad. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 24ª ed. Cultrix, 2007. JOUVE, Vincent. Por que estudar literatura? Trad. Marcos Bagno e Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2012. PERRONE-MOISÉS, Leyla. A criação do texto literário. In: Flores na escrivaninha. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. PIGNATARI, Décio. O que é comunicação poética. 8.ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2005. RICARDO, Cassiano, Jeremias sem-chorar. Rio de Janeiro, José Olympio, 1968. SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Trad. Carlos Felipe Moisés. São Paulo. Ed. Ática, 1993. SILVA, Victor Manuel de Aguiar e. Teoria da Literatura. 3ª ed. Coimbra: Almedina, 1979.

  • Dia da literatura Brasileira - José de Alencar

    Hoje é comemorado o dia da literatura brasileira em alusão ao nascimento do maior ficcionista do romantismo brasileiro: José de Alencar. José Martiniano de Alencar (1829-1877), natural de Messejana, Ceará, era filho de um importante senador de mesmo nome. Formado em Direito em São Paulo (1850), teve uma ilustre carreira como advogado, jornalista e político. Após diplomar-se em Direito, iniciou a colaboração no jornal carioca "Correio Mercantil", como folhetinista. Com o sucesso de suas crônicas e folhetins, depois, assume a direção do "Diário do Rio de Janeiro", o mais antigo jornal do Império. Nesse período, nasce a sua dupla ambição: a política e a literatura. Porém, aborrecido com alguns insucessos na área política e atritos com o Imperador Pedro II, a partir da década de 1870, dedicou-se exclusivamente às atividades literárias. Configura-se como maior nome do romance romântico brasileiro, escrevendo vários livros com temáticas indianistas, históricas, urbanas e regionalistas. O escritor José de Alencar foi um grande inovador da prosa no século XIX, pois batalhou para criar uma identidade brasileira. Ele, assim como outros intelectuais e artistas românticos, acreditava na missão de construir uma pátria por intermédio da arte, da ciência e da política. A obra ficcional de José de Alencar é um projeto de construção literária do Brasil-Nação, num ambicioso painel do país, no tempo e no espaço. OBRAS: Indianista: O Guarani (1857), Iracema (1865), Ubirajara (1874). Urbanas: Cinco Minutos (1856), A Viuvinha (1857), Lucíola (1862), Diva (1864), A Pata da Gazela (1870), Sonhos d'Ouro (1872), Senhora (1875), Encarnação (1877, póstuma). Históricas: As Minas de Prata (1862-6), Alfarrábios, O Ermitão da Glória, O Garatuja (1873), A Guerra dos Mascates (1873). Regionalista: O Gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871), Til (1872), O Sertanejo (1876). No teatro destacam-se: O Demônio Familiar (comédia) e As Asas de um Anjo (drama).

  • Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais

    Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, também conhecido como Dia Mundial do Livro, é um evento anual organizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para promover a importância da leitura e da publicação de livros e os direitos autorais. O Dia Mundial do Livro foi celebrado pela primeira vez em 23 de abril de 1995. A ideia da data é uma forma de homenagear o autor espanhol Miguel de Cervantes, no dia 23 de abril, data do seu falecimento. Em 1995, a UNESCO decidiu que o Dia Mundial do Livro e do Direito Autoral seria comemorado nesse dia, pois a data é também o aniversário da morte de William Shakespeare e de Inca Garcilaso de la Vega. Em 2022, a Capital Mundial do Livro é a cidade mexicana de Guadalajara. Segundo a UNESCO, “especialmente em tempos de incerteza, devemos valorizar e defender livros como símbolos de esperança e diálogo. Os livros há muito incorporam a capacidade humana de evocar mundos, reais e imaginários, dando voz à diversidade da experiência humana. Eles nos ajudam a compartilhar ideias, obter informações e inspirar admiração por diferentes culturas, permitindo formas abrangentes de diálogo entre as pessoas no espaço e no tempo”. O foco do Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais é celebrar todas as atividades relacionadas ao livro: escrever, ler, traduzir e publicar. O Dia é comemorado por milhões de pessoas em mais de 100 países, em centenas de organizações voluntárias, escolas, órgãos públicos, grupos profissionais e empresas privadas. Ao longo dos anos, o dia conquistou um número considerável de pessoas de todos os continentes e de todas as culturas para a causa do livro e dos direitos autorais. Os livros são vistos como janelas para a diversidade cultural e para a cidadania. O dia ajuda as crianças a criar hábitos de leitura e aumentar seu entusiasmo por autores e livros, ampliando o seu escopo afetivo de interesses. Charles Ribeiro Pinheiro

  • Curso Introdução à Literatura Cearense

    Inscrições abertas até o dia 15 de janeiro para o Curso de férias "Introdução à Literatura Cearense", ofertado pelo Prof. Dr. Charles Ribeiro Pinheiro. O curso consiste em um estudo introdutório sobre a história da produção literária no Ceará, enfatizando autores, movimentos estéticos, agremiações e revistas literárias. Por meio de uma metodologia historiográfica e dos estudos culturais, debaterá questões importantes sobre as ideias de tradição e sistema literário e a relevância do Ceará para a literatura nacional. Atividade ideal para graduandos dos cursos de humanidades, professores e pesquisadores em formação. O curso ocorrerá de modo síncrono através do Google Meet, nos dias 18, 20, 25 e 27 de janeiro, com duas turmas: Turma 1 pela manhã (de 10h às 12h) e Turma 2 pela tarde (de 16h às 18h). *O limite é de 35 vagas por turma, mas o curso só ocorrerá se cada turma obter o número mínimo de 15 inscritos. O valor do investimento é de 60 reais. INFORMAÇÕES PARA PAGAMENTO: Cartão de crédito - no link a seguir: https://pag.ae/7XTp4mdBa Dados bancários para PIX: Banco Pic Pay | Ag 0001 | Conta 47241088-1 Nickname picpay - @charlesribeiro82 Chave-pix: entrelugar.literaturacearense@gmail.com Link formulário inscrição: https://url.gratis/fXYU3R Charles Ribeiro Pinheiro é graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará (2008). Mestre (2011) e Doutor em Letras (2019), também pela UFC, com pesquisas sobre o escritor Rodolfo Teófilo. Coordenador do projeto de extensão "O entre-lugar na Literatura cearense" (2015 e 2019). É roteirista e autor de livros didáticos de Literatura. Professor conteudista do Curso de literatura cearense, da Fundação Demócrito Rocha, em 2020. Vencedor do XIII Edital Mecenas (2021) da Secretaria de Cultura do Ceará com o projeto 'Padaria Espiritual em quadrinhos'. Aulas/conteúdos abordados: Literatura Cearense: critérios historiográficos (18/01); Leitura e sistema literário no Ceará (20/01); Iracema como uma tradição inventada (25/01); O Ceará através da poesia (27/01). Autores abordados no curso: José de Alencar, Adolfo Caminha, Paula Ney, Juvenal Galeno, Patativa do Assaré, Pedro Salgueiro, Pe. Antônio Tomás, Demócrito Rocha, Adriano Espínola, Antônio Sales, Poeta de meia Tigela e Edigar de Alencar. EMENTA Curso "Introdução à Literatura cearense" Proponente: Prof. Dr. Charles Ribeiro Pinheiro Modalidade: Curso livre (aulas síncronas) Onde: Google Meet Carga horária: Prática - 8 horas (quatro encontros de duas horas cada) | Teórica - 4 horas | Total: 12 horas. Horário: Duas turmas: Turma 1 - 10h às 12h e Turma 2 - 16h às 18h. Datas: 18, 20, 25 e 27 de janeiro de 2022. Investimento: R$ 60,00. Ementa: o curso consiste em um estudo sobre a literatura cearense, os principais movimentos estéticos, as agremiações literárias, os jornais e revistas, assim como alguns temas poéticos recorrentes e símbolos que constituíram uma tradição literária no Ceará. Será discutido como a literatura cearense tem contribuído, há dois séculos, para o enriquecimento cultural da literatura brasileira, ressaltando a importância de estudar essa intensa produção poética, cujo conjunto de escritores (não apenas os nascidos em terras alencarinas) e obras produzidas no Ceará, que tomam por tema o contexto e a circunstância do homem cearense, foram e são lidos dentro e fora do nosso estado. O curso tem o caráter introdutório às questões relacionadas a historiografia literária cearense e visa ao fomento da leitura, à divulgação e ao auxílio na formação de professores e pesquisadores na área de literatura cearense, trabalhando com a metodologia historiográfica e comparatista. Aulas/conteúdos abordados: Literatura Cearense: critérios historiográficos (18/01); Leitura e sistema literário no Ceará (20/01); Iracema como uma tradição inventada (25/01); O Ceará através da poesia (27/01). Autores abordados no curso: José de Alencar, Adolfo Caminha, Paula Ney, Juvenal Galeno, Patativa do Assaré, Pedro Salgueiro, Pe. Antônio Tomás, Demócrito Rocha, Adriano Espínola, Antônio Sales, Poeta de meia Tigela e Edigar de Alencar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, José de. Iracema. 3. ed. - Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2019. AZEVEDO, Sânzio de. Literatura cearense. Fortaleza: Academia Cearense de Letras, 1976. ________. Aspectos da literatura cearense. Fortaleza: EUFC, 1982 ________. Dez ensaios de literatura cearense. Fortaleza Edições UFC, 1985. BARREIRA, Dolor. História da literatura cearense. Fortaleza: Instituto do Ceará, 4. vol. 1948, 1951, 1954 e 1962. ________. Associações Literárias no Brasil, e particularmente no Ceará - Oiteiros. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza: vol. LVII, 1943. BARBALHO, Alexandre e BARROSO, Oswald (org.). Letras ao Sol - Antologia da literatura cearense. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1996. BENEVIDES, Artur Eduardo. Cancioneiro da Cidade de Fortaleza. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 2ª ed., 1973. Evolução da poesia e do romance cearense. Fortaleza: Imprensa Universitária/UFC, 1976. _________. Canto de amor ao Ceará. Fortaleza: Edições UFC, 1985. BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. ________. Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária. In: Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1981. v. I e II. CAMINHA, Adolfo. A normalista. Fortaleza: Editora ABC, 1997. CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 1986. __________ Periodização e regionalização literárias. In: O próprio e o alheio. Ensaios de literatura comparada. São Leopoldo- RS: Ed. Usininos, 2003. COUTINHO, Afrânio. A tradição afortunada: o espírito de nacionalidade na crítica brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio; São Paulo: Edusp, 1968. _________. Conceito de literatura brasileira. Petrópolis-RJ: Vozes, 1981. _________. O processo da descolonização literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. GIRÃO, Raimundo; MARTINS FILHO, Antônio. O Ceará. Ed. Fac-símile. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 2011. ________; Sousa Maria da Conceição. Dicionário da literatura cearense. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará - IOCE, 1987. JOBIM, José Luis (org). Palavras da crítica. Rio de Janeiro, Imago Ed., 1992. MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária: enunciação, escritor, sociedade. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001. MARTINS, Claudio (org.). A quinzena: propriedade do Club literário. Fortaleza: Academia Cearense de Letras, 1984. MOTA, Leonardo. A Padaria Espiritual. 2. Ed. Fortaleza: UFC, 1994. PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001. SALES, Antônio. História da Literatura Cearense. In: GIRÃO, Raimundo; MARTINS FILHO, Antônio. O Ceará. Ed. Fac-símile. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 2011. SALGUEIRO, Pedro. "Escritor de província". In: O espantalho. Fortaleza: Editora UFC, 1996. SANTIAGO, Silviano. "O entre-lugar do discurso latino-americano". In: Uma Literatura nos Trópicos. 2 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. SILVA, Ozângela de Arruda. Pelas rotas dos livros: circulação de romances e conexões comerciais em Fortaleza (1870-1891). Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011. SOUZA, Roberto Acízelo de. História da literatura: trajetória, fundamentos, problemas. São Paulo: É Realizações, 2014. SOUZA, Simone de e NEVES, Frederico de Castro (org). Intelectuais. Coleção Fortaleza: História e cotidiano. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002. STUDART, Barão de. Datas e factos para a história do Ceará. Tomo I, II e III. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 2001. ________. Dicionário Biobibliográfico Cearense. Fac-sim. Fortaleza: Iris; Secult, 2012. Projeto de Extensão em Literatura Cearense[1] Objetivo geral: Estudo da formação da literatura produzida e lida no Ceará, enfatizando a consolidação de uma tradição literária no estado, analisando a sua contribuição para a diversidade da Literatura brasileira. Objetivos específicos: Estudar a formação do sistema literário no Ceará, enfatizando o campo literário de Fortaleza; Servir como de divulgação da tradição literária do Ceará para o público em geral; Discutir e analisar os diálogos culturais entre os autores cearenses e os autores de outros estados brasileiros e de países estrangeiros, a partir do viés comparatista. Corpus: Estudo de livros e autores, de Juvenal Galeno (1856) ao final da década de 1990, com a publicação de A Casa, de Natércia Campos. Justificativa: O projeto de extensão visa ao fomento da leitura, à divulgação e ao auxílio na formação de pesquisadores na área de literatura cearense, trabalhando com uma abordagem da História da Literatura e da Literatura Comparada, enfatizando a formação, a circulação e a recepção dos autores e de obras literárias produzidas no Ceará, debatendo a contribuição dos escritores cearenses para a formação da literatura brasileira. Metodologia: Para o estudo da literatura cearense, com base historiográfica, utilizaremos como principais referências: Dolor Barreira (1948), Sânzio de Azevedo (1976), Braga Montenegro (1966), Abelardo Montenegro (1953), Artur Eduardo Benevides (1976). Para os estudos em historiografia e Literatura Comparada: Antônio Candido (1959); Silviano Santiago(1978), Tânia Carvalhal (2003) e Leyla Perrone Moises, (1998). Palavras-chaves: Literatura cearense, entre-lugar, Historiografia e Literatura Comparada. [1] Projeto elaborado por Charles Ribeiro Pinheiro, durante o curso de doutorado em Letras (habilitação em Literatura Comparada) do Programa de Pós-graduação em Letras da UFC e com bolsa CAPES-DS. Orientação: Prof.ª Dr.ª Odalice de Castro Silva, Professora Titular, no Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará, coordenadora do grupo de "Espaço de leitura: cânones e bibliotecas".

  • Não olhe para cima – uma sátira sobre a cegueira da humanidade

    Não olhe para cima (Don't Look Up, Netflix, 2021) é uma representação contundente da miséria do nosso tempo? Se dois cientistas anunciassem ao vivo na TV que um asteroide assassino de 9km de diâmetro atingiria a Terra, como você reagiria? O filme é uma comédia apocalíptica que engloba uma crítica à sociedade atual diante de questões tão importantes quanto o aquecimento global, preservação ambiental e, possivelmente, a atual crise mundial da covid-19. Dirigido por Adam McKay, estreou no dia 24 de dezembro no serviço de streaming da Netflix e tem no elenco Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep, entre outros atores renomados. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), uma estudante de doutorado em astronomia, com o professor Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) descobrem um cometa atravessando o sistema solar. O problema é que a enorme rocha está em rota de colisão direta com a Terra, com 100% de chance de extinguir o planeta. Mas, ninguém parece se importar. Com apenas seis meses até que o cometa destrua a Terra, a tentativa dos cientistas de quebrar o ciclo de notícias banais, ganhar a atenção do público obcecado pela mídia social ou fazer com que o governo norte-americano faça algo antes que seja tarde demais, revela-se infrutífera e absurda, ao mesmo tempo. O que é preciso para o mundo simplesmente olhar para cima? Acontece que alertar a humanidade sobre o chamado 'assassino de planetas' é um fato inconveniente. Politicamente não convém, não vende para a mídia, e parece que as fofocas sobre celebridade e outros assuntos cotidianos são mais importantes do que o risco da vida na Terra se extinguir (não é mesmo?). E o que as pessoas fazem? Memes no Twitter e dancinhas no TikTok. Literalmente, ninguém se importa. O longa é um lembrete hilário e mordaz de que a negação da realidade e da ciência é um dos principais males da humanidade contemporânea. Como uma sátira bem construída que consegue delinear os traços da nossa sociedade cega, egoísta e, muitas vezes, sem escrúpulos, a sua atualidade reside numa triste verdade: o ganho de alguns é mais importante do que a salvação de todos. A frase mais absurda e verossímil da narrativa é: "- o cometa gerará empregos!" Infelizmente, a situação não vai mudar, vemos isso todos os dias, como o exemplo do alarme climático, que muitos ignoram. "Não olhe para cima" é um ótimo título satírico. O que você vê quando olha para cima é a coisa mais intuitiva: a realidade. O discurso da presidente (Meryl Streep) - "não olhe para cima" - é essencialmente apenas pedir às massas que o ignorem, fingindo que o cometa não existe, mas isso não lhes permitirá escapar das consequências de serem esmagados pelo desastre. Quem fala a verdade fica sempre rouco. Muitas vezes os gritos não funcionam, pois as pessoas nem querem ouvir. O cometa é uma metáfora, sim, claro, mas de quê? De muitas coisas: pandemia, alterações climáticas, poluições, desmatamentos, armamentismo, desigualdades socioeconômicas extremas, ganância financeira, discursos de ódio, preconceitos, corrução, neofascismo, alienação digital... O cometa que nos destruirá somos nós, os humanos! As pessoas "não olham para cima", porque lá, no céu, está a verdade iminente. "Não olhe para cima" é sobre hipnose coletiva, sobre as milhares de pessoas alienadas, mergulhadas no abismo das fake news das redes sociais. Uma severa crítica sobre o estado lamentável da divisão ideológica que assola o nosso mundo. Um filme que capta a apatia, a indiferença e a negação coletiva da população em face de um desastre absoluto prestes a acontecer em um futuro próximo. Só conseguiremos ampliar a nossa estadia no planeta Terra, se tirarmos os nossos olhos das brilhantes e hipnotizantes telas dos smartphones e enxergar a realidade ao nosso redor e, sobretudo, os nossos próximos.

  • Um clássico historiográfico: "Fortaleza Belle Époque"

    Esse clássico da historiografia cearense foi muito importante para a minha formação como pesquisador de literatura cearense. A obra "Fortaleza Belle Époque", do professor e historiador Sebastião Rogério Ponte, primeira edição de 1993, é resultado de sua dissertação de mestrado sobre a disciplinarização dos corpos e as remodelações urbanas na cidade de Fortaleza, entre a passagem do século XIX às três primeiras décadas do século XX. Foi crucial para a minha pesquisa sobre Rodolfo Teófilo, que auxiliou o entendimento de seu conturbado contexto. Na foto, seguro a 1ª edição, de capa branca, e a 3ª, de 2001, ambas pela Fundação Demócrito Rocha. "Fortaleza Belle Époque, do historiador Sebastião Rogério Ponte, analisa o processo de remodelação urbana e disciplinarização social por que passou a capital cearense entre o final do século XIX e primeiras décadas do século XX. Neste estudo inovador e denso de informações, o autor mostra como essa ordenação sócio-urbana constituiu-se, na cidade, por meios de projetos de embelezamento espacial, campanhas de higienização física e moral da população, imposição de novos padrões europeizados de condutas públicas e privadas, asilamento de mendigos e doentes mentais, e práticas policiais de controle das camadas pobres. A obra contempla, ainda, a sátira, o deboche e a irreverência como formas de resistência popular contra as cotidianas tentativas dos poderes e saberes locais em disciplinar a sociedade." O livro pode ser adquirido no site da Livraria Dummar, no link https://livrariadummar.com.br/fortaleza-belle-epoque.html Se na biblioteca escolar, universitária ou comunitária de vocês existir um exemplar desse livro, não deixem passar a oportunidade de lê-la. Para além de uma leitura, é uma excelente aula de história de Fortaleza. Não percam!

  • Rodolfo Teófilo - Violação

    Publicado em 1898, Violação é uma ficção de horror naturalista, de Rodolfo Teófilo, que se passa durante a terrível epidemia de cólera-morbo no município de Maranguape/CE, em 1862. Segundo o poeta e crítico Otacílio Colares, organizador da edição de 1979: “é este um dos livros mais chocantes de Rodolfo Teófilo, senão um dos mais da ficção brasileira de todos os tempos.” Imagem da 2ª edição compilada junto ao romance A fome, pela Academia Cearense de Letras e José Olympo Editora. O livro Violação, a ser publicado em 2022, é uma nova edição organizada pelo Prof. Dr. Charles Ribeiro Pinheiro, acompanhada de um estudo crítico e notas de rodapé, que faz parte da Campanha Padaria Espiritual em Quadrinhos. Capa por Talles Rodrigues.

  • Dia da literatura cearense - 2021

    O Ceará é manancial de uma tradição literária rica: berço do romancista José de Alencar; pioneiro na divulgação filosófica, nos movimentos políticos e nas manifestações estéticas; lar de clubes e de agremiações literárias, de boêmios e brincalhões; de poetas e ficcionistas que cantaram a serra, o mar e o sertão. Em 1930, com a publicação de "O Quinze", Rachel de Queiroz apresenta ao público brasileiro um novo ciclo dos romances nordestinos na ficção brasileira. Publicado, primeiramente, em Fortaleza, pela tipografia Urânia, não teve muita receptividade na cidade. Poucos meses depois, ao ser distribuído no Rio de Janeiro e em São Paulo, chamou a atenção dos leitores e da crítica literária. Nomes como Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha, Agripino Grieco e Gastão Gruls manifestaram a sua opinião sobre o romance. O Quinze não foi o primeiro livro sobre a secas e, tampouco foi a obra de estreia da escritora, mas, como romancista. Seu grande mérito, além da qualidade artística de sua escritura, foi de apresentar o assunto das secas a todo o país, tratando os dramas humanos sem sentimentalismos, afastada de maniqueísmos e sem o peso descritivo do cientificismo dos autores naturalistas. Rachel nos declara que "na verdade, quando escrevi O Quinze eu já era profissional - trabalhava em jornal e tinha feito até um romancinho em folhetim" (1997). Desde os dezesseis anos que ela atuava como jornalista, em O Ceará, de Júlio Ibiapina, A Jandaia, de Aldo Prado, na revista modernista Maracajá, e no jornal O Povo, de Demócrito Rocha. Ela produzia crônicas, reportagens, poesias e, como a escritora declarou, ensaiou a escrita de um folhetim. Com o intuito de conscientizar as pessoas da importância cultural da literatura cearense, na gestão do governador e acadêmico Lúcio Alcântara, por meio da lei estadual Nº 13.411, de 15 de dezembro de 2003, de autoria do ex-deputado Adahil Barreto, houve a instituição do "Dia da Literatura Cearense", que passou a ser comemorada no dia 17 de novembro, em homenagem ao nascimento de Rachel de Queiroz. Com a publicação do romance O Quinze (1930), a escritora alcançou ampla repercussão, conquistando o interesse dos leitores e da crítica, ao alavancar um novo ciclo dos romances nordestinos na ficção brasileira. Pela força poética de suas narrativas, Rachel de Queiroz tornou-se símbolo da literatura e da cultura cearense, assim como Patativa do Assaré, José de Alencar, Juvenal Galeno, Oliveira Paiva e a agremiação literária e artística, Padaria Espiritual.

  • Por que estudar literatura?

    A pergunta pode parecer inoportuna, no entanto, ela merece ser perguntada. Em programas de ensino sobrecarregadas, é legítimo reservar um tempo para o estudo de textos de definição incerta e cuja função é constantemente questionada? Ressaltamos que não se pode refletir sobre o interesse e o valor de uma obra literária sem levar em conta sua condição de objeto de arte. O texto literário não é um objeto cultural entre outros, nem um simples fato da linguagem. Participante no campo artístico, último espaço onde vale tudo, é beneficiada por uma flexibilidade extraordinária que permite as pessoas explorarem as potencialidades de suas existências e antecipar o conhecimento que virá. No âmbito escolar, como outras matérias e disciplinas, a literatura tem seu lugar na vida cotidiana. Muitas disciplinas têm seus papéis a desempenhar na sociedade, embora a maioria deles tenham aspectos transversais que todos esses campos compartilham. A literatura, não é um campo separado, contudo, tem suas idiossincrasias e também tem funções a desempenhar. Não apenas autores de formação marxista apontam esse fato, mas, de modo crítico, a literatura é uma das formas de consciência social. E, de fato, a literatura dialoga com a vida em todos os seus aspectos. O filósofo francês Jean Paul Sartre nos diz em seu ensaio, "O que é literatura" (1949), que o assunto da literatura é o homem no mundo; ela recria e performatiza seus sentimentos e emoções; suas necessidades; seus relacionamentos com a sociedade; suas próprias contradições e suas possíveis respostas a todos esses aspectos. Portanto, uma das mais importantes funções da literatura é discutir esses aspectos das relações humanas. Através da literatura, o homem expressa as suas angústias, esperanças, sonhos, medos, ideias e paixões.

  • Infância: fase mais bonita e curta da vida

    A infância é uma das etapas mais bonitas e, paradoxalmente, mais curtas de nossa vida, pois tem o poder de nos marcar para sempre. Na infância, aprendemos a nos relacionar e a nos expressar, mas é também quando começamos a descobrir o mundo que nos cerca e aprendemos que existe um universo de possibilidades. Nossas memórias da infância não são simplesmente um retorno do passado. Eles são nossa identidade. As memórias de infância são aquelas sobre as quais nos construímos. Elas são a garantia de que temos um passado. E quando temos um passado, significa que temos a certeza de temos uma história e que, portanto, podemos pensar no futuro. Nesse sentido, as lembranças da infância podem ser uma grande fonte de energia. Principalmente, porque temos a capacidade de transformar memórias de situações desagradáveis em momentos divertidos, e até agradáveis. As nossas lembranças são as fontes de nossas narrativas e, ao dialogarmos com elas, formamos nossa personalidade e a nossa forma de relação com o mundo. Nossas memórias de infância dizem muito sobre o que somos na idade adulta, o que queremos ou o que aspiramos ser. A infância é um segredo, um baú do qual guardamos a chave para sempre, um sonho para sonhar para sempre, uma história que recomeça a cada momento. A infância são todas as crianças que virão, milhões de crianças e tantas memórias. A infância é aquela pequena alma extra, aquela pequena chama que guardamos dentro de nós para aquecer a nossa existência. Só a inocência e a alegria das crianças que nos trazem o consolo dessa realidade tão atroz e injusta. Feliz dia das eternas crianças que existem dentro de nós!

  • Oficina Conhecendo a Literatura cearense

    Oficina: "Conhecendo a Literatura cearense" Proponente: Prof. Dr. Charles Ribeiro Pinheiro Instituição parceira: Rede de leitura Jangada Literária Carga horária: 12h (quatro encontros de três horas cada). Horário: de 14h às 17h. Datas: 06, 13, 20 e 27 de novembro. Resumo: a Oficina consiste em um estudo introdutório da história da literatura cearense, dos principais movimentos estéticos, das agremiações literárias, dos jornais e revistas, assim como alguns temas poéticos recorrentes e símbolos que constituíram uma tradição literária no Ceará. Será discutido como, há dois séculos, a literatura cearense contribui para o enriquecimento cultural da literatura brasileira, ressaltando a importância de estudar essa intensa produção poética, cujo conjunto de escritores (não apenas os nascidos em terras alencarinas) e obras produzidas no Ceará, que tomam por tema o contexto e a circunstância do homem cearense, foram e são lidos dentro e fora do nosso estado. Aulas/conteúdos abordados: O que é literatura cearense? Iracema: uma tradição inventada O Ceará através da poesia. Literatura cearense e crítica social.

  • Italo Calvino e As cidades Invisíveis

    "As cidades invisíveis", obra do escritor italiano Ítalo Calvino, foi publicada pela primeira vez com o título "Le città invisibili", em novembro de 1972 pela editora Einaudi de Torino. O livro é uma compilação de breves relatos descritivos de cidades imaginárias, oriundas das viagens do explorador italiano Marco Polo. As histórias de cada cidade são narradas a Kublai Khan, imperador dos Tártaros que, através das histórias do explorador, pretende conhecer seu vasto território. São cinquenta e cinco cidades classificadas em onze séries e reagrupadas, por sua vez, em nove capítulos que misturam diferentes séries, que são organizadas assim: as cidades e a memória, as cidades e desejo, as cidades e símbolos, as cidades delgadas, as cidades e as trocas, as cidades e os olhos, as cidades e o nome, as cidades e os mortos, as cidades e o céu, as cidades contínuas e as cidades ocultas. As narrativas sobre as cidades fazem que o imperador melancólico compreenda que seu grandioso poder conta pouco em um mundo que caminha para a destruição. Por isso ele recorre ao "Outro", ao estrangeiro Marco Polo que lhe fala dessas cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se alarga e acaba sendo formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana (Calvino, 1983). Em 29 de março de1983, Italo Calvino proferiu uma conferência no curso "Graduate Writing Division", da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, depois publicada com o título "Italo Calvino on "Invisible Cities" na "Columbia: A Journal of Literature and Art", Nº 8, 1983. Acerca do livro, ele declara que é um dos últimos poemas de amor às cidades, pois a cada dia é mais difícil de se viver nos espaços urbanos. Calvino complementa que "talvez estejamos nos aproximando de um momento de crise na vida urbana e "cidades invisíveis" são um sonho que vem do coração de cidades invisíveis" (1983). O escritor ressalta que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas promove uma discussão sobre a cidade moderna. Atualizando para o nosso contexto, em meio à globalização desenfreada, aos grandes problemas sociais, políticos, econômicos, ecológicos, sanitários que enfrentamos, é preciso ter em mente o porquê do surgimento das cidades. Elas são feitas por pessoas que se aglomeraram para que juntas possam revolver os seus problemas, na constante e difícil construção de um modelo viável e coerente de cidade. Contudo, as grandes desigualdades persistem atrozmente. No texto da conferência, Calvino salienta que: "o que importa para o meu Marco Polo é descobrir os motivos secretos que levaram os homens a morar nas cidades, motivos que podem valer para além de todas as crises" (1983). Mesmo que as descrições das cidades geométrica e milimetricamente tecidas por uma prosa poética, além dos diálogos entre Marco Polo e Kublai Khan, o livro nos convida a refletir sobre o desenvolvimento urbano: o que desafios fundamentais que a cidade contemporânea deve enfrentar? O que queremos para a nossa cidade? Como a literatura pode nos ajudar a enfrentar as crises?

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