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- Bate-papo: Charles Ribeiro Pinheiro e a Padaria Espiritual em quadrinhos
Bate-papo: Charles Ribeiro Pinheiro e a Padaria Espiritual em quadrinhos Canal: Ana Luiza Koehler Data: 26 de janeiro de 2023 Resumo: No dia 26 de janeiro, ocorreu o Traços da Cidade", no canal do Youtube da quadrinista Ana Luiza Koehler. No Bate-papo, eu, Charles Ribeiro Pinheiro, pesquisador de literatura cearense e roteirista de quadrinhos, apresentei o projeto de publicação do livro em quadrinhos sobre a agremiação cultural cearense Padaria Espiritual, falei sobre aspectos peculiares da Fortaleza antiga, a relação dos letrados-padeiros e o cotidiano da cidade, no contexto da Belle Époque, e os desafios de pesquisar as fontes literárias e iconográficas para ilustrar a história desse irreverente grupo. O projeto "Padaria Espiritual em Quadrinhos" foi desenvolvido para homenagear e enfatizar a Padaria Espiritual como marco cultural do Ceará. O projeto artístico e interdisciplinar entre literatura e quadrinhos visa publicar um livro em quadrinhos e realizar ações de divulgação e de resgate da história e da memória do respectivo grêmio.
- Narcélio Limaverde - Fortaleza Antiga
Há um ano, falecia o radialista Narcélio Limaverde. Foram quase sete décadas de atuação na comunicação cearense, um dos maiores nomes do nosso rádio e televisão. Iniciou a carreira no Ceará Rádio Clube, na década de 1950 e, na década seguinte, ingressou na recém-inaugurada TV Ceará. Teve passagens pelas rádios Dragão do Mar, Rádio Jornal do Comércio de Recife, Sistema Verdes Mares, rádio Uirapuru, Cidade AM, Rádio Assunção Cearense, FM do Povo. De 2007 a 2022, fez parte da Rádio FM Assembleia, onde apresentou o Programa Narcélio Limaverde. Nesse programa, ele apresentava com muito bom humor e perspicácia, várias histórias da vida cultural cearense, sobre a literatura e as artes e, principalmente, causos e crônicas da Fortaleza antiga. As histórias da Fortaleza Antiga foram transmitidas na TV Assembleia do Ceará, e também constam no canal do Youtube desse canal televisivo. As histórias da Fortaleza antiga também foram publicadas em livro, pelo INESP, em 2008, que estão na foto São histórias deliciosas que se passam entre as décadas de 1940 até 1960, em que Narcélio fala dos carnavais de Fortaleza, a popularização do telefone, as eleições, as quermesses, os cinemas, os bondes, os costumes, a moda, o Ceará Moleque, o cotidiano das redações dos jornais impressos e das rádios. Mas, uma das principais protagonistas de suas histórias, sobretudo, é a Praça do Ferreira e suas metamorfoses, a praça do coreto, da coluna da hora e do abrigo Central. Uma de suas narrativas começa assim: “— Eu já disse que na Praça do Ferreira começava e terminava tudo, inclusive namoros, noivados e promessas de casamentos. Já há pessoas mais jovens, é claro, porque as mais antigas sabem muito bem onde era a famosa Esquina do Pecado. Esse famoso local da Praça do Ferreira ficava...” Querido Narcélio, muito obrigado pelo seu obstinado trabalho na comunicação cearense, para a elevação da nossa cultura e por nos deliciar com as milhares de histórias e memórias que compartilhou generosamente conosco. Muito obrigado.
- 60 anos de publicação de O Planeta dos Macacos
Há 60 anos, em janeiro de 1963, foi publicado o incrível romance do autor francês Pierre Boulle, O Planeta dos macacos, um dos marcos da ficção científica no século XX, que influenciou fortemente o cinema e os quadrinhos. Pierre Boulle (1912-1994) foi um escritor francês que serviu na 2ª Guerra Mundial como espião no sudeste asiático. Escreveu mais de três dezenas de livros, e os mais famosos são A Ponte do Rio Kwai (1952) e O Planeta dos Macacos (1963), que foram sucessos comerciais, rapidamente traduzidos para vários idiomas. O romance conta a história de três homens que exploram um planeta distante semelhante à Terra, onde descobrem que grandes símios são as espécies dominantes e inteligentes, enquanto a humanidade foi reduzida a um estado animal. O narrador, Ulysse Mérou, é capturado pelos macacos e se encontra trancado em um laboratório. Provando sua inteligência para os macacos, ele então ajuda os cientistas dos macacos a descobrir as origens de sua civilização. Uma sátira da humanidade, da ciência e da guerra, o livro também aborda os temas do instinto de sobrevivência, do evolucionismo e da sociedade humana. Em 1968, o livro ganhou grande fama com a adaptação cinematográfica do diretor Franklin J. Schaffner (1968), estrelando Charlton Heston. No filme, a espaçonave americana Icare, que partiu em 1971 com 4 tripulantes a bordo, cruza o espaço a uma velocidade próxima da luz. Ao final da viagem de 18 meses, a nave caiu em 25 de novembro de 39782, em um misterioso planeta, no coração de uma região desértica. Os 3 sobreviventes do acidente, o capitão George Taylor e os tenentes John Landon e Thomas Dodge, descobrem rapidamente que este mundo é povoado por homens ‘primitivos’ dominados por uma raça de macacos evoluídos. Planeta dos Macacos causa choque visual, pois desde o aparecimento na tela dos macacos, ficamos impactados por esses personagens que dominam e caçam outra espécie ‘inferior’: os humanos. Uma cena antológica é a caça dos humanos pelos macacos a cavalo no milharal. O filme também se tornou uma referência em termos de maquiagem e efeitos especiais, devido ao trabalho de John Chambers, que ganhou um Óscar honorário em 1969. Lançado em 1968, o filme traz em forma de alegoria, muitas discussões e críticas sobre as problemáticas que assolavam os Estados Unidos nessa época, e se constrói como sátira à intolerância e ao fanatismo religioso. Ele aborda metaforicamente o movimento dos direitos civis afro-americanos, o domínio relativo do homem sobre a natureza e o medo das consequências do conflito nuclear. O filme gerou várias continuações, séries e quadrinhos, brinquedos, um sucesso comercial midiático de uma história de ficção científica antes de Star Wars, de George Lucas. Além dos filmes, fica a dica da leitura do livro que inspirou todo esse universo, um autêntico romance voltairiano, que oferece uma reflexão irônica, por vezes mordaz e sútil, sobre a arrogância dos seres humanos, ao mesmo tempo em que oferece ao leitor um texto sombrio, original e libertário.
- Dia do Leitor - 7 de janeiro
Hoje é o dia do leitor, data que nos lembramos que a leitura do texto literário é um dos vetores fundamentais para o desenvolvimento do indivíduo na sociedade. O livro é tanto cultural pela abundância e poder da palavra escrita, quanto social pelas interações com a sociedade e o universo escolar necessários ao seu aprendizado. Mas, para que desenvolvimento sociocognitivo ocorra, exige-se um compromisso do leitor na construção do sentido dos textos. É um processo vivo e dinâmico que se baseia em um diálogo entre o leitor e o texto, segundo Mikhail Bakhtin. O relacionamento íntimo resultante pode ser fonte de prazer, mas também de frustrações e confrontos com ideias que perturbam a visão de mundo de cada leitor. É também graças às “contradições” entre leitor, autor e texto que as habilidades do leitor crítico são desenvolvidas. A criação literária é uma atividade exclusivamente humana, nascida do desejo atemporal do homem de compreender, expressar e, finalmente, compartilhar experiências. A literatura se manifesta como um artefato estético concreto, ou seja, ela precisa de um suporte linguístico, tal como um livro, um papel, uma revista, jornal, ebook, hipertexto. Um dos aspectos mais atraentes da literatura é sua relação com a experiência humana. Ler é um ato de engajamento e participação, e também, simultaneamente, um ato de esclarecimento e descoberta, de acordo com Paulo Freire. Os personagens literários nos oferecem acesso imediato a uma ampla gama de experiências humanas que de outra forma nunca poderíamos conhecer. Como leitores, observamos a vida privada e pública desses personagens e nos tornamos a par de seus pensamentos, sentimentos e motivações mais íntimas. O prazer estético da leitura pode nos proporcionar conhecimento e criticidade. Então, viva a leitura!
- Hans Robert Jauss - A leitura, o leitor e a literatura
Hoje é o dia do leitor, data que nos lembramos que a leitura é um ato importantíssimo na sociedade, pois é o ato de ler que dá vida ao texto literário. Vários pesquisadores e historiadores literários trabalharam com as premissas dos conceitos de leitura literária, como Hans Robert Jauss e Wolfgan Iser, da Escola de Constância, Alemanha, a partir do final dos anos de 1960. A teoria da recepção de Jauss coloca o leitor no centro do fenômeno literário considerando que o livro é apenas um objeto reativado a cada leitura. A partir dessa teoria, o leitor é historicizado, ou seja, deve ser inserido em uma determinada época, em um determinado contexto: “Considerando-se que, tanto em seu caráter artístico quanto em sua historicidade, a obra literária é condicionada primordialmente pela relação dialógica entre literatura e leitor — relação esta que pode ser entendida tanto como aquela da comunicação (informação) com o receptor quanto como uma relação de pergunta e resposta —, há de ser possível, no âmbito de uma história da literatura, embasar nessa mesma relação o nexo entre as obras literárias. E isso porque a relação entre literatura e leitor possui implicações tanto estéticas quanto históricas. A implicação estética reside no fato de já a recepção primária de uma obra pelo leitor encerrar uma avaliação de seu valor estético, pela comparação com outras obras já lidas. A implicação histórica manifesta-se na possibilidade de, numa cadeia de recepções, a compreensão dos primeiros leitores ter continuidade e enriquecer-se de geração em geração, decidindo, assim, o próprio significado histórico de uma obra e tornando visível sua qualidade estética. Se, pois, se contempla a literatura na dimensão de sua recepção e de seu efeito, então a oposição entre seu aspecto estético e seu aspecto histórico vê-se constantemente mediada, e reatado o fio que liga o fenômeno passado à experiência presente da poesia, fio este que o historicismo rompera”. (JAUSS, “A história da literatura como provocação à teoria literária”, 1994, p. 22-23).
- Dia de Reis - Epifania
No dia 6 de janeiro, os católicos celebram a Epifania, que é a apresentação de Jesus aos três reis, também chamado como de Dia de Reis. Epifania vem do latim eclesiástico epiphania, do grego Ἐπιφάνια; em que foi traduzido para o latim como apparitio, -onis (aparição). A epifania ocorre 12 dias após o Natal. Esses 12 dias também representam a lacuna entre o calendário lunar e o calendário solar. Um ano corresponde a 12 meses lunares (originalmente, o mês representava o período entre duas novas luas, ou 29,5 dias). Isso perfaz um total de 354 dias. Tem que se adicionar quase 12 dias (como os 12 meses do ano) para chegar ao ano solar. O nascimento de Jesus é contado por dois evangelhos: Mateus e Lucas. Segundo Lucas, são os pastores que vêm homenagear Jesus; de acordo com Mateus, eles são magos. O texto bíblico usa o termo mago, do grego μάγος. Em geral, um mago se refere originalmente a um sacerdote persa ou medo (da Babilônia) ou homem sábio. Eles eram famosos por seus conhecimentos de astronomia e astrologia. Os três magos originalmente não eram reis nem três. O texto bíblico apenas indica que eles são homens sábios do oriente. Se alguém se ater apenas a precisão do texto bíblico, só pode usar esta expressão: os sábios do Oriente. E eles ofereceram a Jesus ouro, incenso e mirra. Ofereceram três presentes e foram então representados posteriormente com três figuras, cada uma oferecendo um presente. Várias interpretações e tradições desenvolveram-se ao longo dos séculos... Os Magos representam os três continentes: Ásia, África e Europa, ou seja, a humanidade. A partir do século XII, os Magos são comemorados pela Igreja Católica. A Adoração dos Magos ao menino Jesus é, a partir do século XV, um tema popular para pintores e artistas. É uma temática profundamente arraigada na cultura popular brasileira, em vários estados, representado, por exemplo, pelos reisados.
- Aniversário de J. R. R. Tolkien
Hoje é aniversário de 131 anos de J. R. R. Tolkien (1892–1973), grande escritor de fantasia e professor de anglo-saxão (inglês antigo) na Universidade de Oxford, ele escreveu várias histórias, incluindo as mais famosas, “O Hobbit” (1937) e a trilogia “O Senhor dos Anéis” (1954–1955), que se passam em um mundo mítico construído por ele, que chamou de Terra-média, povoado com homens e mulheres, elfos, magos, anões, trolls, orcs e hobbits. Nasceu na África do Sul, mas foi criado e fez a sua formação e carreira acadêmica na Inglaterra. Além do inglês, dominou diversos idiomas como alemão, francês, grego, gótico, espanhol e italiano. Depois de combater na Primeira Guerra Mundial, ele começou seu primeiro trabalho como pesquisador e contribuiu com suas habilidades linguísticas para a construção do Oxford English Dictionary, iniciado em 1918. No âmbito da literatura inglesa, concentrou-se no estudo do romance de cavalaria “Sir Gawain e o cavaleiro verde” e o épico “Beowulf”. Seu primeiro romance de fantasia premiado, O Hobbit, foi publicado em 1937 e apresentava o pequeno Bilbo Bolseiro de pés peludos e suas aventuras espetaculares para roubar o tesouro de um poderoso dragão com uma turma de anões. Mas, “O Hobbit” era apenas uma pequena ponta de um grandioso universo mitológico escrito por Tolkien, que reconheceu que, para criar um mundo crível, a Terra Média, tinha que preenchê-lo com sua própria geografia, história, idiomas, genealogias, calendários e povos. Nenhum escritor da língua inglesa jamais criou um mundo mais completo do que Tolkien. Então, nos anos de 1950, ele publica a trilogia “Senhor dos anéis” em que apresenta a expansão da mitologia da Terra Média, cativando leitores de todo o mundo. A trilogia “O Senhor dos Anéis” (A sociedade do anel, As duas Torres e o Retorno do Rei) foi traduzida para vinte e cinco idiomas e vendeu milhões de livros no mundo. Cada obra de fantasia que veio depois, desde os romances de Harry Potter e os filmes de Star Wars até jogos como Dungeons and Dragons, deve muito à espantosa imaginação de Tolkien e a tem como referência.
- Máximo Górki - A Mãe
Esse romance de Máximo Gorki é uns dos precursores do realismo socialista e se inspira na manifestação do “1º de maio” de 1902, em Sormovo, e o julgamento dos seus participantes. "A Mãe" (1906) descreve o desenvolvimento psicológico e político de uma mãe, Pélagué Nilovna Vlasova, em contato com o filho Pavel e seus camaradas revolucionários, em um subúrbio industrial da Rússia pré-revolucionária. Nesse contexto russo, no começo do século XX, Pélagué era inicialmente uma mulher sem educação e sem personalidade, que trabalhava sem perspectiva de mudança, e vivia, acima de tudo, com medo de ser espancada pelo marido alcoólatra. Após ficar viúva, Pélagué começou a temer pela segurança do jovem filho, que transformou a sua casa em ponto de encontro de dissidentes e socialistas, críticos ao governo czarista. Com rigor e profundidade, Gorki mostra, em uma inversão simbólica de papéis, como um filho ajuda sua mãe a encontrar seu lugar no mundo, mostrando-lhe o caminho para sair do círculo limitado de ansiedades e resignações que ela sempre conheceu, após 20 anos de humilhações e violência. A princípio, ela ficou assustada com a ideias perigosas do filho, que não entendia, ideias repletas de paixão e de ideais de emancipação política. Acompanhando as discussões políticas e leitura de livros, pouco a pouco, desperta nela a consciência da injustiça vivida pelos trabalhadores da sociedade czarista. Quando Pavel é preso pela primeira vez, a mãe se encarrega de continuar a distribuição clandestina de panfletos ao pessoal da fábrica onde Pavel trabalha, a fim de salvar o filho da prisão. Em um segundo momento, Pavel é preso novamente após organizar a manifestação de 1º de maio, e a mães não o abandona e organiza várias manifestações ao seu favor. O vínculo intenso entre Pélagué e Pavel, unidos pelos valores da justiça e da verdade, está no centro desta epopeia humana para a qual o povo contribuiu fornecendo figuras de um heroísmo simples e cotidiano, que destemidamente se rebelam contra os poderes de opressão e desigualdade. Um clássico da literatura que expressa a força da conscientização sociopolítica.
- TODOROV E A TEORIA DO FANTÁSTICO
Introdução à Literatura fantástica é um ensaio que se tornou um clássico, de autoria de Tzvetan Todorov, teórico literário e crítico cultural. O pensador nos ensina a construir os limites de um gênero: na hesitação não resolvida do leitor entre o naturalismo do estranho e o sobrenatural do maravilhoso. O livro é importante devido à contribuição à teoria literária na forma de sua definição de fantástico na literatura. Ao discutir o fantástico, ele não está discutindo literatura de fantasia. Embora críticos de fantasia, teóricos, romancistas e fãs muitas vezes se refiram aos tropos da fantasia como fantásticos, Todorov adota a palavra como um termo explicitamente separado da fantasia. Em vez disso, a teoria do fantástico refere-se a um cânone muito menor de obras literárias. É um termo muito específico que se coloca entre dois outros gêneros (ou estilos/tipos) literários: o estranho e o maravilhoso. O estranho é um termo originário do alemão "das unheimliche", que é experimentado ao encontrar algo que é, ao mesmo tempo, estranho e familiar. O maravilhoso, por outro lado, é a visão mais tradicional da fantasia. Todorov argumenta que o estranho é caracterizado pela resposta de um personagem - geralmente o medo - a algo aparentemente inexplicável ou impossível. Ele argumenta que o maravilhoso não exige uma resposta de um personagem, apenas que o evento fantástico ocorre. O fantástico é definido como um momento de hesitação entre crença e descrença do sobrenatural. É uma forma literária muito frágil, pois pode balançar facilmente de um lado para o outro. Como Todorov diz: "O fantástico ocupa o tempo desta incerteza. Assim que se escolhe uma das duas respostas, deixa-se o terreno do fantástico para entrar em um gênero vizinho: o estranho ou o maravilhoso. O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais que as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural". Essencialmente, para Todorov, o estranho é o sobrenatural explicado, e o maravilhoso é o sobrenatural aceito como sobrenatural. A hesitação do personagem, como a do leitor, é a chave para compreender esse fenômeno literário. O fantástico nos põe ante um dilema: acreditar ou não acreditar? Essa é a fórmula que resume o espírito do fantástico. Fragilidade e especificidade são os principais indicadores do fantástico. Contudo, é preciso salientar que Todorov constrói sua teoria pautado em textos épicos, contos de fadas, textos folclóricos e, principalmente, autores que escreveram entre o séc. XVIII e XIX, tais como E.T.A Hoffmann, Gérard de Nerval, Henry James, Edgar Alan Poe, Charles Dickens, Nikolai Gogol e Hans Christian Andersen. O pesquisador não vai além do século XIX. Posteriormente, apareceram centenas de escritores que desenvolveram ficções fantásticas, em todo o mundo. Mas, Todorov, para a construção de sua teoria, só trabalhou com autores até o século XX. Isso é importante para não atribuir sua teoria a tudo. Se for usado em um debate sobre um escritor, posterior ao período investigado pelo crítico, precisamos estabelecer uma contextualização, observando suas especificidades e critérios. Claro que há quem o considere ultrapassado, demasiado estruturalista, há detratores, há defensores. O importante é que merece ser lido e discutido. Referência: TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica [1970]. 4. ed., 3ª reimp. Tradutora: Maria Clara Correa Castello São Paulo: Perspectiva, 2017.
- Dia 16 de junho – bloomsday – a legado da obra de James Joyce
Charles Ribeiro Pinheiro Um dos grandes exemplos da rica herança literária da Irlanda é a obra de James Joyce, que inspira leitores há décadas. Em 16 de junho de cada ano, os fãs e estudiosos de Joyce celebram o bloomsday, na Irlanda e ao redor do mundo, em homenagem ao seu romance Ulisses. Ao contrário de muitos romances que se estendem por semanas, meses ou anos, o épico de Joyce ocorre inteiramente em um único dia: 16 de junho de 1904. Ulisses, publicado em 1922, consiste em 18 episódios construídos e inspirados pela obra Odisseia, de Homero, e se passa em 18 locais, ao redor de Dublin, no intervalo de um dia. Os três personagens centrais - Stephen Dedalus (o herói do livro anterior de Joyce, Retrato do artista quando jovem ); Leopold Bloom, um publicitário judeu; e a esposa dele, Molly - são contrapartes modernas de Telêmaco, Ulisses (Odisseu) e Penélope, respectivamente. Os eventos do romance aludem aos principais eventos da jornada de Odisseu rumo a sua casa, após a Guerra de Tróia. Como o personagem central do romance é Leopold Bloom, daí o nome do dia. Outra curiosidade interessante, é que nessa mesma data, ocorreu o primeiro passeio romântico de Joyce com sua musa e futura esposa, Nora Barnacle. Portanto, o dia 16 de junho, na Irlanda, ficou conhecido como bloomsday. O livro Ulisses foi o produto de uma longa e árdua jornada literária. Dublin é o cenário central para Ulisses, mas o romance não foi escrito lá. Joyce começou a escrevê-lo em 1914, enquanto estava em Trieste, dez anos após sua última residência permanente em Dublin. Ele continuou a trabalhar em Ulisses enquanto morava em Zurique, depois em Paris. Entre 1918 e 1920, partes da obra foram lançadas como uma série por um jornal americano chamado The Little Review. Mesmo enquanto Ulisses estava sendo serializado pelo jornal, a moralidade do livro foi questionada pelos conservadores. De fato, a Sociedade para a Supressão do Vício de Nova York fez uma queixa legal contra The Little Review, em 20 de setembro de 1920. Isso resultou no confisco de cópias do jornal pelos correios. As cópias foram queimadas devido à linguagem obscena e algumas descrições escatológicas presentes no texto. Porém, o romance foi finalmente concluído em 1921. No ano seguinte, uma livraria parisiense Shakespeare and Company, da norte-americana Sylvia Beach, publicou Ulisses na íntegra. Além de seus personagens complexos, mescla de épicos com trágicos, Ulisses é um notável romance modernista. Joyce desenvolveu a técnica narrativa do fluxo de consciência para dar aos leitores acesso direto às mentes das personagens. Isso muitas vezes revela momentos íntimos, desagradáveis - alguns podem dizer obscenos - da vida desses seres de papel, tão verossímeis quanto nós. Estilisticamente denso e estimulante, a sua linguagem imaginativa pinta uma imagem detalhada de um único dia em Dublin. Construído como um paralelo moderno à Odisseia de Homero, em muitas vezes é tão abstrato que Joyce deu a seus próprios amigos notas para ajudá-los a entender a conexão entre as duas narrativas literárias. É geralmente considerado uma obra-prima, e apesar da complexidade, tem sido objeto de numerosos comentários e análises até hoje. O que é o Bloomsday? Se você estiver em Dublin durante a semana de 16 de junho, poderá ver grupos de pessoas em trajes típicos dos anos 1920 fazendo um passeio a pé pela cidade. Essas pessoas em trajes 'vintage' estão comemorando o bloomsday, em que representam cenas da época de Leopold Bloom, conforme retratado no romance de Joyce. Atores geralmente representam cenas selecionadas no livro, e em cada lugar citado, atores ou autores leem trechos relevantes do livro. Também há entrevistas com especialistas, leituras de poesia, apresentações musicais e espaços culturais completam as festividades. O bloomsday como o conhecemos agora começou em 1954. Cinquenta anos após os eventos narrados no romance, John Ryan (um artista e fundador da revista literária Envoy) e Brian O'Nolan (um romancista e dramaturgo) organizou um tour centrado no romance Ulisses, em Dublin, começando na Joyce's Tower, em Sandycove, onde o livro começa. Eles também designaram vários membros de seu grupo para representar personagens de Ulisses. Essas tradições ainda são seguidas nas celebrações contemporâneas do bloomsday. James Joyce (1882-1841) viveu a maior parte de sua vida adulta como exilado pela Europa continental, fugindo do que considerava as restrições morais opressivas da Irlanda católica. No entanto, quase toda a sua obra literária é ambientada em sua cidade natal, Dublin. Muito dos seus textos, incluindo Ulisses, foram censurados na Irlanda e não puderam ser publicados na época. Ulisses foi publicado em Paris pela Shakespeare and Company, de Sylvia Beach. Foram os amigos de Joyce que começaram a comemorar o bloomsday todos os anos após a publicação. O primeiro bloomsday, celebrado em Dublin ocorreu em 1954, e agora se tornou um evento popular, organizado pelo James Joyce Centre. E até hoje, leitores, artistas, professores e críticos celebram a obra de James Joyce.
- Pontos para análise do texto ficcional
Pintura de Charles Baudelaire (1848) by Gustave Courbet Elencamos, alguns pontos, técnicas e questionamentos pertinentes e preliminares de como analisar os textos literários em prosa de ficção. Antes de mergulhar direto em sua análise do simbolismo, dicção, imagens ou qualquer outro recurso retórico, você precisa ter uma compreensão dos elementos básicos do que está lendo. Quando lemos crítica ou analiticamente, podemos, primeiramente observar personagem, enredo, cenário e tema como elementos de superfície de um texto. Além de observar o que são e como conduzem uma história, às vezes não prestamos muita atenção a esses elementos. No entanto, os personagens e suas interações podem revelar muito sobre a natureza humana. O enredo pode atuar como um substituto para eventos do mundo real, assim como o cenário pode representar o nosso mundo ou um mundo alegórico. O tema é o coração da ficção, explorando tudo, desde o amor e a guerra até a infância e o envelhecimento. Com isso em mente, você pode começar seu exame da ficção com as perguntas: quem, o que, quando, onde, como? Pergunte a si mesmo: "Quem são os personagens?", "O que está acontecendo?", "Quando e onde isso está acontecendo?" e "Como isso acontece?". As respostas darão a você o personagem (quem), o enredo (o que e como), o cenário e o tempo (quando e onde). Ao colocar essas respostas juntas, você pode começar a descobrir o tema e terá uma base sólida para basear sua análise. Exploraremos vários dos seguintes elementos literários nas páginas a seguir, de modo que possamos ter um vocabulário comum para falar sobre ficção: tom, personagem, enredo, configuração, narração, dispositivos retóricos, tema, imagens e símbolos. Espaço: o cenário é uma descrição de onde e quando a narrativa acontece. Que aspectos compõem o cenário? Qual o papel do cenário na história? É uma parte importante do enredo ou tema? Ou é apenas um cenário em que a ação ocorre? Tempo: pode ser cronológica, em que a história transcorre de modo linear, ou psicológico/subjetivo, que transcorre na mente das personagens, sonhos, alucinações etc. Quando a história foi escrita? Ocorre no presente, no passado ou no futuro? Como o período de tempo afeta a linguagem, a atmosfera ou as circunstâncias sociais. Personagens: a caracterização trata de como os personagens são descritos. Que tipo de personagens são? Como são descritos fisicamente? Os pensamentos e sentimentos? Como são os diálogos? Interação - qual a maneira como eles agem em relação a outros personagens? São personagens estáticos que não mudam? Eles se desenvolvem até o final da história? Quais qualidades se destacam? Eles são estereótipos? Os personagens são verossímeis? Enredo: é a sequência de eventos que compõem a história. Quais são os eventos mais importantes? Como o enredo está estruturado? É linear, cronológico ou se move para frente e para trás? Existem pontos de inflexão, um clímax e/ou um anticlímax? A trama é verossímil? Narrador e ponto de vista: o narrador é a pessoa que conta a história, enquanto o ponto de vista são os olhos (perspectiva) de quem conta a história Quem é o narrador ou locutor da história? O narrador é o personagem principal? O autor fala por meio de um dos personagens? A história é escrita no ponto de vista "eu" da primeira pessoa? A história é escrita em uma terceira pessoa "onisciente" que pode revelar o que todos os personagens estão pensando e fazendo em todos os momentos e em todos os lugares? Conflito: a tensão que é proposta como obstáculo ao protagonista da narrativa. Como você descreveria o conflito principal? É interno em que o personagem sofre internamente? são externos causado pelo ambiente ou ambiente em que o personagem principal se encontra? Tema: é a ideia principal, lição ou mensagem da narrativa. Geralmente é uma ideia universal sobre a condição humana, sociedade ou vida, para citar alguns. Como o tema transparece na história? É explícito ou implícito? Existem elementos repetidos que podem sugerir um tema? Que outros temas existem? Estilo: refere-se ao uso do vocabulário, uso de imagens, tom, figuras de linguagem, sintaxe. Tem a ver com a atitude do autor em relação ao assunto. Em alguns romances e contos, o tom pode ser irônico, humorístico, frio ou dramático. Como o autor trabalha as figuras e recursos de linguagem? O autor usa símbolos ou alegorias? Como o autor trabalha a sintaxe, o léxico e o ritmo das frases? A análise literária de um romance, conto ou novela, frequentemente, será na forma de um artigo, resenha, resumo, ensaio ou relatório de livro, em que será solicitado que se emita opiniões sobre uma obra. Para concluir, escolha os elementos que mais o impressionaram. Indique quais personagens chamaram mais a sua atenção. Tente ver o romance como um todo e tente fazer uma análise equilibrada. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Tradução Cleonice Paes Barreto Mourão e Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: UFMG, 2010. CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. Trad. Sandra Vasconcelos. São Paulo: Beca Produções Culturais, 1999. FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1973. JOBIM, José Luiz (Org.) Palavras da crítica: tendências e conceitos no estudo da literatura. Rio de Janeiro-RJ: Imago, 1992. JOUVE, Vincent. Por que estudar literatura? Trad. Marcos Bagno e Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2012. MERQUIOR, José Guilherme. As ideias e as formas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix 11ª ed., 2002. PORTELLA, Eduardo. Fundamento da Investigação Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1974. ROGER, Jérôme. A crítica literária. Rio de Janeiro: Difel, 2002. SAMUEL, Rogel. Manual de Teoria Literária. (Org.) Petrópolis: Vozes, 1985. SILVA, Victor Manuel de Aguiar e. Teoria da Literatura. 8ª ed. Coimbra: Almedina, 1991. SOUZA, Roberto Acízelo de. Iniciação aos estudos literários. São Paulo: Martins Fontes, 2006. WELLEK, René; WARREN, Austin. Teoria da literatura e metodologia dos estudos literários. Trad. Luís Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
- O que é uma Resenha? Breves considerações
Charles Ribeiro Pinheiro Uma resenha é uma avaliação crítica de um livro (literário ou não-literário) e de uma variedade de obras artísticas (incluindo músicas, filmes, espetáculos, exposições, performances, peças, games etc.). Este texto se concentra em apontamentos para resenhas de livros literários, assim como livros técnicos, científicos, ensaios, ciências humanas. Acima de tudo, uma resenha constrói um argumento. A característica mais importante de uma resenha é que ela é um breve comentário crítico somado a uma síntese/resumo. Permite construir um diálogo com o criador da obra e com outros públicos. Pode-se concordar ou discordar e identificar em que considera a obra relevante ou insatisfatória, a partir de uma análise formal, experiências com obras semelhantes e conhecimentos teóricos prévios. A opinião sobre a obra em questão deve ser clara e objetiva. Não se trata de um artigo acadêmico, porém, pode existir a referência ou alusão a alguma teoria ou pensador, menção a livros sobre o assunto abordado, comparação a obras próximas. Esses diálogos entre saberes e opiniões enriquecem a argumentação do texto em escrita. Normalmente, as resenhas são breves. Em jornais e revistas acadêmicas, raramente excedem uma média de 1.000 palavras, embora existam trabalhos mais longos e comentários extensos. Em ambos os casos, as resenhas precisam ser sucintas. Embora variem em tom, assunto e estilo, compartilham algumas características comuns: fornece ao leitor um resumo conciso e relevante do conteúdo ou tema do livro, bem como sua perspectiva geral, tese ou propósito. Em segundo lugar, e mais importante, uma resenha oferece uma avaliação crítica do conteúdo. Finalmente, além de análise, uma resenha sugere ou não a obra ao público. A escrita da resenha exige o desenvolvimento de um argumento sobre a obra ou livro em consideração e apresentar esse argumento organizado e bem fundamentado em um texto conciso. Para a escrita de uma resenha, é fundamental elencar algumas perguntas pertinentes e, ao respondê-las, organizá-las em um encadeamento lógico e argumentativo: Qual é o assunto da obra/livro? Apresente a obra e o seu autor. Além do resumo, descreva a organização geral e aspectos formais. Para quem é escrito? Qual é o objetivo dessa obra? Interessante situar a obra no contexto histórico, científico, cultural e artístico mais amplo. Como o autor estrutura seu argumento? Quais são as partes que compõem o todo? O argumento faz sentido? As evidências são convincentes? São pontos pertinentes para textos não-literários, como livros científicos, artigos, biografias, ensaios. Qual é o gênero do livro? De que campo surge? Ele se conforma ou se afasta das convenções de seu gênero? Essas perguntas podem fornecer um padrão histórico ou literário no qual basear as avaliações. É interessante? É relevante? Chamar a atenção para partes do livro e comentá-las de forma positiva e/ou negativa - consultar outras publicações que fizeram algo semelhante. Observar o propósito do livro: se é bem sucedido ou não. Como esse livro ajuda os leitores a entender o assunto? É recomendável o livro ao leitor? SÍNTESE: GÊNERO RESENHA Etimologia e definição: vem do Latim "resignare" - re- "de novo" + signum- "sinal, assinatura, marca". Ou seja, resumir, elaborar uma lista. Contemporaneamente, designa o gênero textual que realiza uma breve apreciação de um objeto cultural ou científico. Tem por objetivo apresentar e julgar o objeto resenhado para determinado público, emitir uma opinião, descrever. Estrutura da resenha Introdução/ apresentação; Descrição do objeto ou tema; Apreciação crítica; Referência bibliográfica. Pontos importantes para a construção da resenha: Identificar o autor; Apresentar a obra; Descrever a estrutura e o conteúdo da obra; Analisar criticamente; Recomendar ou não a obra.











